14/08/2022

Quais são as previsões para o mercado de seguros brasileiro em 2022?

Mais do que nunca, o gerenciamento de riscos passa a ser atividade e condição para minorar qualquer impacto negativo
seguros

Ao meu ver, o mercado de seguros brasileiro continuará a crescer como aconteceu em 2020 e 2021. Entretanto, há alguns pontos importantes para que isso se concretize.

O primeiro tem relação com o comportamento da Susep e a opinião do mercado em geral a esse posicionamento. O que esperamos do novo superintendente? Irá continuar o desenvolvimento do mercado e sua inserção no mercado internacional? As condições de abertura do mercado previstas em circulares específicas continuarão prevalecendo? Como ficará a Resolução 382 dos corretores?

Paulo Leão de Moura

Devemos respeito ao novo superintendente, recém nomeado, e conceder um prazo mínimo para situar-se nas atividades, estudar o que foi feito para determinar mediante clara e transparente comunicação ao mercado as suas considerações e planejamento com relação ao desenvolvimento do seguro no Brasil. É justo reconhecer que a substituição de liderança da entidade resulta em alguma insatisfação na tratativa que era concedida ao mercado. Ao meu ver, é irrelevante discutir essa questão.

O importante é conhecermos se a Susep, em eventual novo rumo ou procedimentos, irá manter a abertura e a modernização do mercado ou se irá pretender o retorno ao tradicional sistema de absoluta padronização e controle das operações de seguro, sem liberdade de atuação por parte das seguradoras e corretores profissionais. Em outras palavras, vamos voltar ao tradicional sistema conservador ou vamos dar prosseguimento, com eventuais modificações e adaptações pontuais, no caminho da modernização?

Temos que entender que o Brasil não detém, ainda, um volume de produção de prêmios de seguros, de capacidade própria de absorção de grandes riscos, de conhecimento técnico profissional suficiente e criativo, de estruturas modernas de prestação de serviço e de seguros, que permita que se torne, de fato, independente do sistema internacional. Nem mesmo, os EUA, EU e, agora, China conseguem isso. É bem verdade que, em matéria de seguros, o Brasil dá maior atenção aos seguros massificáveis (automóvel, residência, condomínio, vida), que permitem maior distribuição de risco e resultado positivo, portanto, investe mais na evolução desses seguros.

Seguradoras brasileiras reduziram ou se desinteressaram dos seguros empresariais, dos grandes riscos, por motivos que vão desde a maior sinistralidade por não ser bem tratados até o fato inegável que exigem qualidade mais sofisticada de prestação de serviços, necessariamente inerentes aos seguros empresariais que demandam investimentos adicionais na preparação técnica adequada para prestá-los. Daí o desinteresse e a transferência desses seguros às seguradoras estrangeiras que são assistidas pelos grandes corretores de seguros profissionais, muitas estrangeiras também.

As corretoras profissionais de seguros estão aptas a prestar o “servicing office”, atendendo eventuais exigências legais locais e suprindo suas casas matrizes de dados técnicos dos riscos para os programas internacionais de seus clientes. Por outro lado, é justo reconhecer o que já comentei inúmeras vezes: o chamado mercado de grandes riscos brasileiros é, na verdade, considerado pequeno ou médio pelo mercado internacional. Essa condição afeta sobremaneira a nossa atuação em resseguro. Como existe um desinteresse generalizado das seguradoras brasileiras quanto ao risco empresarial, como as seguradoras estrangeiras que os aceitam reconhecem que não houve tratativa adequada de gerenciamento de risco, costumam conceder capacidades locais mais reduzidas, a tendência é o uso do resseguro internacional.

Esse resseguro será tratado pelo mercado internacional como pequeno, no máximo médio, portanto, sujeito as condições de aceitação básica de resseguros com restrições de coberturas, preços e, principalmente, aos choques dos mercados “soft” e “hard”, sobretudo, as experiências negativas das catástrofes que vem ocorrendo ultimamente no meio-ambiente por consequência das mudanças climáticas.

A tentativa da abertura do nosso mercado surge para melhorar essa realidade. Minhas considerações devem ser entendidas como relacionadas a grandes riscos, não aos riscos massificados, exceto no que respeita aos riscos e seguro de Pessoas: Vida, Saúde, Benefícios e Affinity.

No meu entendimento, a abertura do mercado, ainda em processo de implantação, demonstrou claramente uma certa divisão de interesses. Às seguradoras cabe a função de proporcionar sensível melhora na qualidade do produto seguro. Aos corretores de seguro, às insurtechs e aos corretores agentes proporcionar junto aos seguradores o desenvolvimento dos seguros massificáveis aumentando significativamente o volume de prêmios. Aos corretores profissionais, em conjunto com as seguradoras e resseguradoras, entender dois aspectos semelhantes entre si. Primeiro que o seguro, para sua correta e necessária colocação, exige inúmeros serviços inerentes.

O segundo, consequente do primeiro, é que seguro é a mais importante tratativa de transferência de risco. Assim, no seguro empresarial pequeno, médio ou grande está implícita a necessidade da prestação de serviço de gerenciamento dos riscos básicos por parte dos corretores que administram programas de seguro a seus clientes. Como administrar um programa de seguros de uma empresa sem conhecê-la profundamente, sem identificar a que está exposta e seus riscos, sem dimensioná-los e, por fim, determinar em conjunto com o segurado o que deve ser transferido ao seguro?

Infelizmente, estamos em um momento de expectativa onde o mercado aguarda a posição da Susep para dar prosseguimento à sua adaptação à modernização.

Na verdade, deveríamos dar prosseguimento a essa adaptação independente da tomada de decisão, uma vez que já dispomos dos instrumentos para tanto. As seguradoras resolvem seus problemas de resseguro quanto aos contratos automáticos e sua adequação às novas normas. E as seguradoras estrangeiras que operam em grandes riscos passem a acreditar e a ter maior apetite aos nossos grandes riscos, devidamente gerenciados e minimizados oferecendo seus melhores produtos.

Reconheço que 2022 continuará sendo um ano de grandes riscos. A agressão ao meio-ambiente prevalecerá no Brasil. As catástrofes climáticas continuarão severas. Os riscos especulativos gerados pela política eleitoreira, pelas crises econômicas, pelos problemas crônicos que nos afligem irão se agravar influenciando os grandes riscos. Mais do que nunca, o gerenciamento de riscos e seguro passa a ser atividade e condição para minorar qualquer impacto negativo.

* Por Paulo Leão de Moura, chairman da THB Brasil