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EXCLUSIVO – Onde fica o corretor de seguros em um mundo aberto? Onde ele quiser, mas , principalmente, na liderança dos projetos centrados na experiência do cliente. Ninguém melhor do que este profissional conhece as necessidades dos segurados. Mesmo com a mudança do perfil de consumo, saber identificar a necessidade para indicar uma solução ainda é um trabalho árduo.

Há muita gente criativa no Brasil. No mercado de seguros, ninguém começou a falar que a legislação de Open Banking estabeleceu 25 de outubro 2021 como data final da entrada dos seguros de vida e previdência no sistema. “As seguradoras já têm dificuldade com este prazo por conta de não contarem com orçamento ou porque possuem em seus sistemas vários outros, de seguradoras menores que foram incorporadas”, avalia Renato Terzi, ex-CEO da Gr1D.

Imagine que você seja a Discovery Health (uma grande empresa sul-africana de saúde), muito moderna e tecnológica, que se arrisca bastante com novas tecnologias . Ela quer vir para o Brasil, mas não entra aqui porque para pegar um grande conta, precisa de informações e dados sobre os beneficiários. Apenas quem tem a conta da empresa sabe o que está acontecendo, o que inviabiliza uma cotação mais assertiva de outras empresas. “Com a legislação do Open Insurance, ela consegueria os dados dos últimos 12 meses, caso houvesse concordância do estipulante. Isso serve para previdência, saúde e seguro de vida, por exemplo. É preciso ter um histórico do mercado”, avalia Terzi.

O sistema de open insurance democratiza o acesso às informações e deve abrir espeaço para as seguradoras de porte médio, regionais e de nicho, que buscam um ‘lugar ao sol’, mas que não conseguem espaço porque não possuem capital suficiente. As seguradoras precisam se posicionar para encontrar novas soluções, principalmente as de grande porte. 

“O open insurance é um movimento sem volta, porque a legislação de open banking já está pronta e inclui os seguros de vida e previdência. As seguradoras precisam trabalhar dentro de um ecossistema, próprio ou de outro líder”, afirma Roberto Ciccone, vice-presidente de seguros da Capgemini.

O sistema open possui três dimensões principais: do ponto de vista estratégico, as seguradoras não têm como fugir de trabalhar em ecossistema, posicionando-se como líder ou como participante; a cultura e os processos internos devem ser “customer centric”, porque o mundo mudou e o cliente busca produtos diferenciados e customizados. A seguradora deve largar os produtos de prateleira, anuais. Isso exige customização, inovação e agilidade; e a tecnologia tem que ser plug and play, para promover a rápida conexão com entre os API’s.

Já há aceleradores para este processo das seguradoras, como a legislação de open banking, além de um mercado mais competitivo e de comportamento do cliente, com comportamento dos riscos diferente para as seguradoras, como os riscos on demand, o pay as you drive, as catástrofes climáticas, mudança no perfil demográfico de saúde. Tudo é muito incerto, mas as atitudes devem ser tomadas de forma rápida.

“As seguradoras não farão todas as mudanças dentro de casa. Elas terão que buscar parceiros, insurtechs, empresas com pontos especializados, e ir incorporando isso à sua cadeia de valor”, avalia Ciccone.

Tudo que nasce em uma seguradora agora já tem o conceito de API, mas há ainda um longo caminho a ser percorrido. As plataformas arquiteturais de processos de tecnologia das seguradoras ainda têm muito problemas, porque não se comunicam bem ou tem muitos códigos e não é ágil. Há uma transformação da tecnologia legada e do front end digital. 

Sandbox regulatório

O sandbox regulatório deve motivar empresas de qualquer tamanho a competirem de igual para igual em alguns nichos mal cobertos. A intenção é que estas novas empresas possam trazer novidades com agilidade para o setor, com possibilidade de florescer antes de ter todo o peso regulatório. 

Com o sandbox regulatório, a Susep espera a iniciativa enderece a transformação que vem acontecendo nos segmentos financeiro, de capitais e securitário. O uso de tecnologias inovadoras permite o surgimento de novos modelos de negócio, com reflexos na oferta de produtos e serviços com qualidade e alcance. Esse cenário impõe aos reguladores o desafio de atuar com a flexibilidade necessária para adaptar suas regulamentações às mudanças tecnológicas e constantes inovações. O objetivo também é ampliar a cobertura de seguros no país, estimulando a concorrência e a inovação, por meio de uma experiência diferenciada para os segurados, possibilitando alguma diminuição de preços para os consumidores”, afirma Eduardo Fraga, diretor da Susep.

Em um primeiro momento, as carteiras mais beneficiadas pelas nova regulamentação são aquelas ligadas aos seguros massificados de curto prazo. Dela ficam excluídos os segmentos de previdência, resseguros, grandes riscos e responsabilidade civil.​

Os efeitos das novas regras estipuladas pelo sandbox ainda devem demorar um pouco, principalmente depois de passado o período da pandemia. Por enquanto, na prática as startups que surgiram para atender o setor atuaram com mais foco em desintermediação. “Isso aconteceu em outras partes do mundo também, pois a primeira onda é sempre de sites de vendas mais simples ou comparadores de preços. Inovação de produtos, modelos de negócios, serviços adicionais junto com o seguro ainda não apareceram muito”, constata Ciccone.

Existe certa sequência das tecnologias, numa espécie de evolução natural. Depois do front de vendas vem a inteligência artificial, internet das coisas etc, como uma onda.

O sandbox pode trazer novas soluções novas e criativas para o mercado, o que é louvável. Entretanto, Renato Terzi avalia que a operação da empresa deve ser de um produto minimamente viável para ter capacidade de chegar ao volume necessário em um curto prazo de tempo. “A ideia é boa, mas precisaria dar um pouco mais de segurança para você ter um ciclo maior. Sem uma operação que já roda e com volume, não vejo como funcionar, a não ser que seja como movimento de marketing. Mas este é um enorme passo que a Susep deu, principalmente em nível de mentalidade, mostrando que ela está empenhada em mudar o mercado”.

O open insurance abre um grande caminho para novas empresas. O que vai acontecer de mais legal é que as barreiras entre as indústrias irão diminuir. Neste sentido, os grandes incumbentes, que têm muito medo desta realidade, possuem muitas oportunidades, porque é possível fazer contratos bilaterais com empresas de mercados não regulados pelo Banco Central”, comemora Terzi.

Para ter sucesso e prosperar, as seguradoras deverão experimentar e inovar para lançar novos produtos e serviços em um ritmo muito mais rápido e com prazos de entrega cada vez menores. Em um ambiente de criação aberto é possível envolver vários setores e aumentar o valor de ponta a ponta para os clientes.

Kelly Lubiato
Revista Apólice

* Matéria originalmente publicada na edição 255 da Revista Apólice

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