EXCLUSIVO – Recentemente, no Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, na Suíça, a GSMA apresentou a “Declaração Digital”. A iniciativa, que estabelece pautas éticas para a era da 4ª Revolução Industrial, conta com o apoio de 40 líderes mundiais de empresas como IBM, Samsung e Telefónica.

A medida surge em um contexto de mudanças significativas que afetam empresas e consumidores no mundo digital. Espera-se que, até 2022, 60% do PIB seja digitalizado. Dentre outras coisas, a Declaração exige que o mercado respeite a privacidade; trate os dados com segurança e transparência; mitigue ameaças cibernéticas; e assegure o desenvolvimento da economia digital.

A iminente chegada das redes 5G irá acelerar ainda mais essa mudança. Ao mesmo tempo, os clientes possuem cada vez mais expectativas dos serviços digitais, enquanto sua confiança nas empresas está sendo testada. “O número de empresas que assinaram essa declaração mostram o quão ela é importante para o nosso desenvolvimento”, diz Marco Mendes, especialista em segurança cibernética da Aon.

Marco Mendes

Para ele, os pontos que mais merecem mais destaque são os que dizem respeito à privacidade do cidadão. “Temos que lidar com dados de forma segura e transparente, tomar medidas para mitigar as ameaças cibernéticas e, principalmente, promover a inclusão digital”, diz. “Temos tratado para conscientizar as empresas cada vez mais a respeito do assunto. O mercado brasileiro deve se comunicar mais, conversar, aprender com o erro do outro e ensinar. São fatores críticos para que criemos maturidade e nos insiramos na economia mundial”, reforça o executivo da Aon. “Os criminosos se falam, revelam vulnerabilidades, pontos em que outros hackers poderiam explorar. Devemos ter comunicação para combatê-los”, acrescenta.

A tecnologia móvel já alcança mais de 5 bilhões de assinantes exclusivos em todo o mundo, o que representa cerca de 2/3 da população mundial. Estima-se que esse número crescerá para quase 6 bilhões (71%) até 2025. “Vivemos na era da Revolução Industrial 4.0. As economias são cada vez mais pautadas por dados. A transformação não poderá será interrompida. O que está sendo promovido é a inclusão digital de forma sustentável. Devemos fazer tudo isso de forma respeitável”, diz Mendes. Ele complementa falando que os riscos atrelados à inclusão devem ser mitigados, e isso passa pela transparência. “Os demais princípios são complementares ao principal que é a inclusão digital. À medida que a tecnologia está no nosso dia a dia, precisamos pensar como lidaremos com ela daqui para frente; como traremos as pessoas para esse mundo; e como reinventaremos os postos de trabalho”, analisa.

O Brasil 4.0

De acordo com o especialista da Aon, o Brasil ainda enfrenta algumas dificuldades acerca do assunto. “Aqui, a transformação digital não acontece muito rápido. Temos dificuldade em atingir regiões que se afastam mais do centros – como Norte, Nordeste e Centro-Oeste”.

Apesar disso, ele ressalta que no Forúm Mundial medidas já foram apontadas. E em algumas regiões mais periféricas já é possível encontrar companhias de tecnologia trabalhando para construir a infraestrutura necessária para gerar essa inclusão digital. “O grande desafio hoje é a infraestrutura. Falamos desde o cabeamento, sinal telefônico até a questão da educação”. Ele conta que, nos últimos anos, viu algumas políticas de inclusão sendo implantadas, apesar disso nunca ter sido um assunto de prioridade para os comandantes do País. “Agora, observo no plano do novo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, que a questão da inclusão digital é prioritária no plano de governo”, explica. Mendes afirma que, quando se entrega internet para as pessoas nas regiões mais afastadas do País, elas são integradas e o relacionamento melhora. Isso aprimora também as cadeias de suprimentos. “Deve-se trabalhar a infraestrutura, para promover e fornecer bons serviços”.

Mercado de seguros

O especialista ainda explica que, para o mercado de seguros, a Declaração tem um peso ainda maior, pois atinge o setor de duas formas. “A primeira é muito clara, temos legislações recentes como a LGPD, que infere em um risco para o próprio mercado, porque trabalhamos com basicamente com dados de clientes”, começa. “Em um segundo momento, temos que observar o risco cibernético, que deve ser trabalhado de acordo com a vulnerabilidade e a infraestrutura das empresas. As maiores normalmente têm uma base sólida e já trabalham o risco cibernético dentro de casa, então as seguradoras não têm grande problema para analisá-los. Mas, quando falamos de um país no qual falta infraestrutura e conscientização, o problema é toda a cadeia de suprimento. Empresas menores tendem a sofrer muito e podem ficar mais vulneráveis. Ou seja, quando a seguradora analisa o risco cibernético, ela tem que levar em consideração toda essa cadeia, todo um ambiente onde essas empresas que estão pleiteando cobertura de risco cibernético se inserem”.

Mendes esclarece que, com a LGPD, as seguradoras ficaram a mercê de uma agencia nacional de proteção de dados que será criada agora. “É tudo muito imprevisível para as seguradoras, que, hoje, medem o risco pela maturidade da empresa”, finaliza.

Confira a Declaração Digital aqui.

Maike Silva
Revista Apólice

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