EXCLUSIVO – A odontologia brasileira é referência mundial e está entre as três melhores do mundo, junto com a sueca e americana, de acordo com um estudo da ONU. Alguns especialistas apontam que a razão disso se dá por uma cultura híbrida que alimenta o ramo, na qual os mais ricos são extremamente exigentes com relação aos planos odontológicos contratados e os mais pobres têm à disposição tratamentos “adaptados”, oferecidos a custos muito reduzidos.

Dados do Sinog revelam que 2,6 milhões de pessoas contrataram planos odontológicos nos últimos dois anos (junho/2016 a junho/2018), o que representou um crescimento de 12,60%. Já no biênio anterior, o número de contrações teve elevação de apenas 5,78%. A grande quantidade de novos entrantes mesmo em um cenário econômico desfavorável e a boa reputação odontológica do País fazem com que esses planos sejam imunes à crise e se sobressaiam em relação a outros produtos, como os planos de saúde.

Rozana Tito Sperduto

“Os planos odontológicos têm um ticket médio menor do que os planos médicos hospitalares. Além disso, oferecem uma cobertura ampla, na qual o associado consegue tratar, em média, 80% dos problemas odontológicos”, explica a Dra. Rozana Tito Sperduto, gerente Odontológico da Golden Cross. “Outra vantagem é que a contratação pode ser feita com coberturas adicionais ao Rol de Procedimentos estabelecido pela ANS”.

Geraldo Almeida Lima, presidente do Sinog defende que, além do ticket médio oferecer uma boa relação custo/benefício, a ampla rede credenciada de qualidade também corrobora para este crescente aumento no número de beneficiários. “Posso falam ainda do interesse do empresariado que deseja oferecer este benefício como parte do salário indireto, visto que a adesão a um plano odontológico contribui para a retenção de talentos nas empresas, diminui o índice de faltas e, principalmente, permite acesso aos cuidados preventivos e curativos para manter a saúde bucal”, continua.

Segundo pesquisa realizada pelo Ibope e encomendada pelo Instituto de Estudos em Saúde Suplementar (IESS) de 2017, 79% dos beneficiários de planos odontológicos estão satisfeitos ou muito satisfeitos com seus produtos. O mesmo estudo ainda indica que 81% recomendariam o plano odontológico para um amigo ou parente.

Rozana conta que, nos últimos quatro anos, a faixa etária acima de 59 anos foi a que mais teve aumento no número de beneficiários. “Isso só mostra que a população está sendo melhor cuidada, que os idosos possuem mais informações sobre os cuidados com a sua higiene oral e têm ido cada vez mais ao dentista”. Já o presidente do Sinog complementa dizendo que “Essa mudança de comportamento sinaliza que essa a nova geração de idosos tem uma mentalidade diferente de seus pais e avós”.

Geraldo Almeida Lima

Apenas no ano passado, foram mais de 200 milhões de procedimentos odontológicos realizados pelas operadoras odontológicas segundo a ANS. Dentre os mais demandados estavam os preventivos, restaurações de dentes de leite e permanentes, tratamentos endodônticos, extrações, profilaxia e aplicação de selantes e próteses.

Preocupação?

De acordo com levantamento do departamento de economia do Sinog, o segmento cresceu aproximadamente 26,6% em número de usuários nos últimos cinco anos. Para se ter uma ideia, apenas no terceiro trimestre de 2018, o número de beneficiários alcançou a marca de 24,1 milhões.

Mesmo com um cenário positivo e promissor, ainda observou-se uma taxa significativa de cancelamento de contratos individuais, (3,1% ao mês), evidenciando um problema há muito apontado pelo setor, de que estes beneficiários estão mais propensos a contratar o plano para fazer um determinado tratamento e cancelar o contrato posteriormente. Nas outras modalidades como coletivos empresariais e por adesão essas taxas são de 2,5% e 2,0%, respectivamente.

O presidente da entidade explica que um dos grandes desafios do setor é criar uma regulamentação específica para a odontologia suplementar, que considere as diferenças e especificidades deste segmento. “Isto, inclusive, poderia ampliar o leque de produtos das operadoras”, ressalta. Ele acredita que há a necessidade de haver uma revisão da análise de impacto regulatório, pois, cada segmento, seja ele o odontológico ou o médico-hospitalar, tem implicações diferentes quando do cumprimento dos atos normativos expedidos pela agência reguladora. “Uma destas questões envolve a desproporcionalidade das penalidades aplicadas pela agência reguladora”. Ele explica que as operadoras exclusivamente odontológicas suportam um peso muito maior do que o suportado pelos planos de assistência médica, mesmo, na maioria das vezes, não tendo capacidade financeira para tanto.

“Além de valores altíssimos das multas, que podem chegar a centenas de milhares de reais, há ausência de regras claras, excesso de normativos a serem cumpridos e prazos muito curtos para o atendimento de demandas assistenciais, que dificultam o cumprimento da legislação”, complementa o presidente.

Enquanto as operadoras odontológicas têm ticket médio mensal de R$ 17,40, dos quais sobram R$ 7,60 para o custeio de despesas administrativas, tributos e resultado, as empresas que trabalham com plano médico-hospitalar têm ticket médio de R$ 336,50, sobrando R$ 65,00 para o custeio da operação. “Essa disparidade sobrecarrega a capacidade econômica das operadoras exclusivamente odontológicas e pode acabar comprometendo, inclusive, a sustentabilidade do segmento”, salienta Lima.

Tecnologia e futuro

A incorporação tecnológica na odontologia suplementar também é necessária para compor e otimizar os sistemas de gestão, que interligam toda a cadeia produtiva (consumidor, operadora e prestador de serviço). “Os aplicativos móveis, a inteligência artificial e big data ajudam o segmento a identificar padrões epidemiológicos e de utilização para obter a previsibilidade do custo assistencial”, declara Lima. “Já a Internet das Coisas (IoT) e o uso estratégico das informações geradas por esta tecnologia é capaz de aumentar a satisfação do paciente, humanizando sua relação com o profissional que vai prestar o serviço. Além disso, serve como alavanca para o sucesso das empresas”.

“Cada vez mais, surgem produtos diferenciados e é preciso estar atualizado com essas novas tecnologias, que facilitam as novas práticas de tratamento para os nossos associados, como, por exemplo, o uso de impressora 3D ao invés das tradicionais moldagens, tratamento de canal com o uso de microscópio, além do uso de laser de baixa frequência para diminuir a sensibilidade dentária”, salienta Rozana.

Atualmente, o setor conta com 24,1 milhões de beneficiários, demonstrando a contínua expansão do segmento, na contramão da crise. No últimos dois anos, o tipo de contratação que mais cresceu foi o plano coletivo por adesão (17,78%), seguido do individual/familiar (12,27%) e coletivo empresarial (12,15%). A faixa etária que se destacou na contratação de um plano odontológico foi a de pessoas com 59 anos ou mais, apresentando um crescimento de 28,97%.

Maike Silva
Revista Apólice

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