Somos impactados por invasões e roubos digitais todos os dias, ao passo em que os crimes virtuais continuam crescendo de forma vertiginosa. Especialistas estimam que existe 1,5 bilhão de dados disponível para hackers em todo o mundo. Em 2017, 978 milhões de indivíduos foram vítimas de crimes cibernéticos globalmente. No Brasil foram 62 milhões de vítimas, o que equivale a, aproximadamente, 60% da população brasileira online ativa.

César Medeiros

O relatório ThreatMatrix CyberCrime de 2017 aponta que os sul-americanos representam 50% das fraudes relacionadas a novas contas em redes sociais globalmente, e um estudo da empresa ESET sobre o crescimento do ransomware ressalta que, de todos os ataques cibernéticos perpetrados no globo, 33% concentram-se na América Latina. O Peru é o país que lidera a ocorrência de ataques cibernéticos na região (25%), seguido pelo México (19,60%), pela Argentina (14,50%) e pelo Brasil (14%).

Seminários e painéis como os apresentados durante o evento Desafios de Insurtech, ocorrido em Miami (Flórida), entre os dias 17 e 18 de abril, evidenciam que os países latino-americanos não estão preparados para lidar com essa nova realidade. Quatro em cada cinco países não contam com políticas unificadas de proteção ou infraestrutura mínima para combater os crimes cibernéticos, e dois em cada três nações latino-americanas não possuem um órgão que lidere o controle sobre essa matéria.

Diferenças culturais e legais à parte, o desafio é novo para a América Latina como um todo, e, exatamente por isso, representa uma oportunidade de negócios ainda inexplorada. Em uma região que conta uma população vasta e opera um grande volume de novos negócios, a oferta de soluções de proteção cibernética revela-se uma indústria de grande potencial para o mercado de seguros e insurtechs.

As vantagens da oferta de recursos vinculados à segurança da vida digital

Embora seja cada vez mais comum as empresas incentivarem os clientes a utilizar plataformas digitais, as questões relacionadas à privacidade de dados têm se tornado um dos assuntos que mais preocupam os consumidores. Uma pesquisa de novembro de 2017 realizada pela Gemalto indica que 62% dos consumidores responsabilizam empresas por violação de dados online, 69% sentem que as empresas não levam muito a sério a segurança de seus clientes, e 70% deixariam de fazer negócios com uma empresa que sofresse violação de dados.

Esses números mostram que, além de representar um grande potencial para a ampliação e o crescimento do mercado de seguros, a oferta de soluções de proteção cibernética simboliza uma grande oportunidade para as marcas se diferenciarem dos concorrentes. Quando uma empresa oferece ao cliente um portfólio de soluções, também transfere para a própria marca impressões de inovação, cuidado e proteção; entrega valor ao consumidor de forma regular; mantém o relacionamento com o consumidor de forma constante; e engaja o cliente.

Como se vê, as soluções de proteção digital geram uma relação de ganha a ganha – que beneficia tanto a empresa especializada nesse tipo de ferramenta quanto as empresas que ela atende e os seus respectivos clientes finais – e constitui uma fatia do mercado que ainda ignorada.

Uma pesquisa realizada pela Bain & Company em outubro de 2017 mostra que os clientes querem mais serviços de suas seguradoras. Eles buscam mais suporte, soluções e proximidade. De acordo com o levantamento, 87% dos consumidores que possuem seguro de automóvel e 89% dos consumidores que contam com cobertura residencial têm interesse em outros produtos.

Oferecer solução de proteção digital pode ser muito simples porque se trata de um serviço que se encaixa em qualquer cobertura de seguro. É possível complementar e diferenciar o seguro de vida com a oferta de uma cobertura de vida digital, por exemplo. Outra possibilidade é oferecer, em um plano de
seguro residencial, não apenas suporte tecnológico, mas também suporte de prevenção online. A proteção digital combina com seguro de cartão de crédito, seguro auto e até massificados.

Engajamento, vantagens financeiras e benefícios sociais

Ao engajar os clientes, as empresas contam também com a oportunidade de poder desempenhar um papel conscientizador. As empresas que oferecem serviços de cyber proteção criam um ecossistema saudável à medida que ensinam os clientes a combater os riscos, usar a internet de forma segura e se
proteger. Quando as companhias educam e conscientizam seus clientes, eles também passam a conhecer os riscos que estão em jogo e a compreender a importância de um seguro ou serviço de proteção. Este nível de educação e consciência é imprescindível em uma região como a América Latina, cujos países figuram entre aqueles que mais são prejudicados pelos cyber criminosos e que menos educam o próprio povo.

Ao contrário do que muitas empresas pensam, a segurança cibernética não é uma área geradora de despesas, mas de oportunidades. Aquelas que forem pioneiras em oferecer esse tipo de solução terão uma grande oportunidade de se aproximar de seus clientes, desempenhar um papel socioeducativo  tornando os consumidores mais informados, engajados e empoderados . As insurtechs, se forem inteligentes, também vão abrir os olhos para essa fatia do mercado.

Sobre o autor

César Medeiros, country head da unidade de Customer Engagement Solutions da Affinion no Brasil