13/08/2022

Empresas inovadoras são o caminho para soluções de mercado

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Mercado de seguros aposta nos desenvolvedores de empresas para criar soluções capazes de revolucionar seus produtos e serviços

Empresas de todos os setores da economia já acordaram para uma nova realidade: elas precisam se reinventar. Não apenas em termos de produtos e serviços mas, principalmente, na forma como se relacionam com os seus clientes, diretos e indiretos.

Em tempos de comunicação instantânea, quem perde a oportunidade de estar com o cliente ou de oferecer novidades pode ficar para trás. Mas, o que fazer para encontrar soluções simples, baratas e disruptivas (palavra da moda)? Investir.

Não há uma saída diferente desta. A variação ocorre por conta de onde, como e em quem apostar para descobrir novas tecnologias. A aposta de alguns grupos do setor de seguros volta-se para a aceleração de pequenas empresas que possam apresentar novidades com potencial de melhorar, ou até revolucionar, um produto, serviço ou até uma companhia.

A busca destes talentos pode acontecer no ambiente interno, com o incentivo para que os colaboradores exercitem sua capacidade de resolver problemas, ou no investimento externo, através de aceleradoras de empresas.

Aceleradoras são empresas cujo objetivo principal é apoiar e investir no desenvolvimento e rápido crescimento de startups, ajudando-as a obter novas rodadas de investimento ou a atingir seu ponto de equilíbrio (break even), fase em que elas conseguem pagar suas próprias contas com as receitas do negócio. “Além dos serviços de apoio e benefícios oferecidos, a aceleradora investe também um pequeno valor financeiro, o chamado survival money e, em contrapartida, torna-se sócia da startup até o desinvestimento, que é quando sua participação é vendida para investidores ou empresas”, diz Pedro Waengertner, professor e coordenador de marketing digital na ESPM.

Os patrocinadores destas aceleradoras podem atuar em várias frentes. No caso do mercado de seguros, o grupo Porto Seguro investe na Oxigênio para buscar startups que tenham sinergia com os seus negócios, nas áreas de seguros, saúde, Telecom, serviços ou até cartões de crédito. “Olhamos para empresas que façam sentido para a Porto Seguro e os vários ramos de atuação da companhia”, explica Mauricio Martinez, gerente da Oxigênio Aceleradora.

Portanto, uma aceleradora é um modelo de negócio para trazer novas ideias para um grupo. Vários especialistas deste setor são categóricos ao afirmar que este tipo de ação é necessária porque os grandes conglomerados não conseguem passar pelos processos de ideação e prototipação de maneira rápida. Assim, é mais fácil trabalhar com as ideias fora da companhia. Martinez conta que é feito um aproveitamento das expertises das startups. “Por exemplo, a Bynd estimula as caronas para o transporte para o trabalho entre os colaboradores. Quem tem carro e oferece carona vai ganhando pontos que podem se transformar em passagens aéreas. Isso é importante para a economia de vagas do estacionamento, por exemplo”.

Outro exemplo apresentado na Oxigênio é a Evnts, uma empresa que consegue realizar reservas de turismo corporativo com descontos. “A empresa já está prestando serviços para o Rock in Rio”, comemora Martinez. No setor de seguros, a Oxigênio ainda não possui nenhuma empresa. Mas o executivo destaca que isso é apenas uma questão de tempo.

Atuando desde janeiro de 2016, a aceleradora já acolheu 19 empresas das mais diferentes áreas. Martinez explica que, no início, a companhia também convidou a participar do programa os funcionários que possuíam algum projeto e interesse em empreender.

Na Oxigênio, o programa de aceleração dura três meses. Neste período, a startup recebe uma mentoria personalizada, de acordo com o seu momento. “Ela fica fisicamente presente na aceleradora e tem a opção de passar mais três meses no Vale do Silício, com o parceiro Plug and Play (uma das maiores aceleradoras da região)”, explica Martinez.

Este período fora do país é opcional, mas de extrema importância para as empresas que buscam uma aproximação com os mais notáveis inovadores do mundo. Além disso, algumas startups já prevêem em seu planejamento estratégico um intercâmbio internacional, seja para obter experiência ou para se relacionar com clientes potenciais. “Fora, ela tem acesso a novos mercados, novos investidores (é uma vitrine) mas, o mais importante, é a transferência tecnológica, porque a cada ciclo cerca de 150 empresas passam por lá”, ratifica Martinez.

O caminho das pedras

Ter uma boa ideia é o começo de tudo. Entretanto, isso não é o suficiente para abrir as portas das várias aceleradoras que existem no Brasil e no mundo. Luisa Ribeiro, CEO da Gema Ventures e fundadora da Papaya Ventures, uma das primeiras aceleradoras de startups da América Latina, criada em 2011, explica que alguns itens são avaliados no momento da decisão pelo investimento em um projeto. “Em geral, há alguns itens que olhamos bastante. Um dos principais é o time da empresa”.

Pois é. Não adianta ter uma boa ideia se as pessoas envolvidas no projeto não tiverem capacidade intelectual, profissional e emocional de colocar o negócio em pé. Outro ponto muito importante é a análise de mercado: saber se o problema cuja solução está sendo proposta realmente existe. “Isto é fundamental, principalmente no mercado B to B. Temos que entender se haverá consumidores para o produto”, aponta Luisa.

Não menos importante é observar se a ideia é realmente inovadora e para quais setores ela se destina. As oportunidades hoje estão nas mais diversas áreas. A economia viu as inovações brotarem nos mais diferentes mercados, como turismo, transporte, mobilidade e financeiro. Mas Luisa, com sua experiência de montagem de aceleradoras para empresas, mostra que as áreas de seguros, saúde e varejo, por exemplo, têm um vasto campo a ser explorado.

Depois de aceita em um programa de aceleração, a startup passa por um relacionamento intenso com seus mentores. No caso da Oxigênio, depois dos três meses iniciais e do estágio no exterior, a startup ainda permanecerá por mais dois anos recebendo a consultoria de mentores.

Experiência externa

Com a onda de investimento em Insurtechs (startups com negócios dirigidos para o mercado de seguros), seguradoras e resseguradoras ao redor do mundo decidiram arregaçar as mangas e buscar novidades. A Sompo Seguros fez isso de maneira global, com a implantação de um laboratório no Vale do Silício, e localmente também.

No Brasil, o departamento de inovação foi implantado em 2016 com um grupo multidisciplinar. O objetivo de desenvolver nova ideias prosperou. Na primeira ação, 30 participantes de diversos setores e posições hierárquicas apresentaram 40 ideias. Alguns projetos ainda não saíram do papel, mas um deles acaba de virar um produto.

Claudio Quaglia, gerente de Inova- ção da Sompo Seguros, explica que o seguro para equipamentos para pessoas deficientes físicas nasceu a partir do novo departamento. “Depois da ideação deste produto, a diretoria entendeu a importância da inovação. Muitas da ideias não viraram projetos, mas melhorias de produtos e serviços”.

Como em todo processo inovador, Quaglia agora se prepara para um perí- odo de intercâmbio. Seu próximo passo será um estágio de três meses, onde? Lá mesmo, no Vale do Silício, onde fica o Sompo Digital Lab. “Uma das missões para promover a disseminação de uma cultura de inovação é criar multiplicadores”, pontua.

Inovação

Em uma empresa, a inovação se fundamenta em três pilares: dissemina- ção de cultura; ecossistema interno para mentoria dos projetos (é importante que haja abertura de canais para receber as ideias e premiá-las); ecossistema externo, com modelos de aceleradoras e incubadoras de empresas.

“A inovação não tem regra e este é o seu grande barato. Por isso, não podemos procurá-la em um lugar só. A importância do grupo multidisciplinar é pensar diferente, ter perfis diferentes. O meio termo disso é que traz os resultados”, define Quaglia.

O Sompo Digital Lab está dividido entre Japão e Estados Unidos. Pensa sempre no bem-estar de um público que ainda não havia sido contemplado. A inovação na Sompo é levar inovação para os seus segurados e procurar soluções para serviços e projetos, ferramentas que melhorem o relacionamento com o cliente. “Até 2020, vamos buscar efici- ência operacional, por exemplo, fazer a vistoria por celular para colisão pequena”, adianta Quaglia.

Estamos atrasados em relação ao que acontece fora. Por aqui, o carro autônomo ainda está fora da realidade brasileira, por conta da abrangência da internet. Há várias tecnologias cujo crescimento é limitado por questões de infraestrutura como a baixa qualiddade e velocidade da internet.

“Ser inovador não é um instrumento de marketing, apesar de trazer frutos neste sentido. É preciso montar programas para acelererar empresas que tenham sinergia com o setor para que eventualmente possam ser feitas parcerias no futuro”, ensina Luisa.

Vale do Silício

O termo original inglês Silicon Valley refere-se a uma região da Califórnia, mundialmente conhecida como pólo de tecnologia de ponta. O local começou a se desenvolver no ano de 1950, com o objetivo de gerar e fomentar inovações no campo científico e tecnológico. A maioria das empresas instaladas na região são do ramo da eletrônica, informática e componentes eletrônicos. O nome Silício é utilizado como homenagem ao próprio elemento químico (Si), que é a matéria-prima básica e de fundamental importância na produ- ção da maior parte dos circuitos e chips eletrônicos.

A região é composta por várias cidades do estado da Califórnia, como Palo Alto, Santa Clara, San José, Campbell, Cupertino, Fremont, Los Altos, Los Gatos, Menlo Park, Mountain View, Milpitas, Newark, Redwood City, Saratoga, Sunnyvale e Union City. Dentre as empresas que iniciaram seus negócios e possuem sedes na região, podemos citar a Apple, Facebook, Google, NVidia, Electronic Arts, Symantec, AMD, Ebay, Yahoo!, HP, Intel e Microsoft, além da Adobe e Oracle.

O Vale do Silício é uma das maiores aglomerações de empresas com domínio de tecnologia de ponta do mundo. Isso acontece porque a região é conhecida por desenvolver modelos acessíveis de financiamento para projetos de tecnologia. Com o crescente desenvolvimento da região, o quadro atual do local é parecido com qualquer outro: trânsito, imóveis supervalorizados e alta competitividade.

Kelly Lubiato
Revista Apólice

essa reportagem foi veiculada originalmente na edição 221 (maio)