Edição 219

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Uma via de mão dupla

Entender a expectativa do cliente é o maior desafio das Ouvidorias. Somente em 2015, quase 70 mil reclamações chegaram às seguradoras brasileiras, que mantêm departamentos exclusivos e autônomos para atender seus clientes

Por Kelly Lubiato

consumidor | ouvidoria

O empresário Dae Yol Kim enfrenta há quatro meses um périplo para regular o sinistro ocorrido em sua residência. Através de uma mesma corretora, ele adquiriu o seguro do seu carro e da sua casa. Depois de vários meses falando com a corretora, ele descobriu que não tinha a cobertura contra terceiros. Entretanto, questiona a demora da corretora e da seguradora em responder a sua demanda.

Quando uma reclamação chega à ouvidoria, é porque ela já passou por outros âmbitos da companhia. Esta instância foi regulamentada pela Susep em 2013, mas algumas seguradoras já dispõem deste departamento há mais tempo.

Apesar de ser um setor reconhecido e regulamentado, a ouvidoria ainda não é vista pelo cliente como um canal pró-consumidor. Esta é a sua grande diferença para o SAC (Setor de Atendimento ao Cliente), além de ter um fluxo da reclamação que varia de acordo com cada empresa.

Segundo o relatório das Ouvidorias elaborado pela CNseg, com dados de 33 seguradoras e operadoras de saúde, em 2015 chegaram 110.681 demandas de consumidores. É importante destacar, conforme o relatório, “que o exercício da função do Ouvidor pressupõe um significativo grau de entendimento das operações de seguros, capitalização, previdência complementar aberta, saúde suplementar e experiência de vida suficiente para identificar o custo social de um pleito juridicamente amparado que não seja atendido”

A CNseg estima que atualmente 100% das seguradoras tenham uma ouvidoria para atender os segurados. Além da obrigatoriedade, o aumento das demandas acontece por dois fatores: o primeiro é a maior conscientização do consumidor em relação aos seus direitos; a segunda é a maior divulgação da existência destes canais. Silas Rivelle, presidente da Comissão de Ouvidores da CNseg, explica que a Ouvidoria é uma via de mão dupla. “O cliente fala o que pensa sobre a empresa e recebe de volta este material tratado”. Hoje, o consumidor encontra no site da maioria das seguradoras e operadoras de saúde o caminho para chegar até a ouvidoria. É um avanço significativo para o Brasil, que possui uma legislação favorável ao consumidor desde 1991, quando foi promulgado o Código de Defesa do Consumidor.

Na Icatu Seguros, a ouvidoria funciona desde 1998 e recebe as demandas que passam pelo atendimento ao cliente e que não são resolvidas. A advogada Gabriela Assmar é a responsável pelo setor e afirma que muitas das demandas não são de ordem técnica, mas porque este é um produto bastante sofisticado e muita gente compra sem ler o contrato. “É uma questão de educação do cliente”. Entretanto, Gabriela acrescenta que o DNA da Ouvidoria é ser aquela instância a qual o cliente chega quando os canais anteriores não resolveram. “No momento que chega até nós, deixa de ser a mesma lógica”, ressalta.

A ouvidoria, por definição, deve ter autonomia, independência, alçada decisória e não pode ter medo de desagradar a diretoria e o conselho da empresa. O objetivo mais nobre deste setor é, além de resolver o problema do consumidor, gerar recomendações e melhorias que evitem que problemas semelhantes voltem a acontecer.

O trabalho da ouvidoria é sempre movido pela ação do segurado. “A demanda do cliente reclama depois de passar pelos setores de atendimento da companhia ou por meio de canais ‘agravados’ (Susep, Procon’s e mídia – Consumidor.gov; ReclameAqui; Facebook)”, explica Gabriela. Nos casos que vêm direto das mídias sociais, nem sempre se trata de reclamações. Podem ser simples solicitações de documentos ou dúvidas sobre o contrato.

De acordo com a regulamentação da Susep, a Ouvidoria tem prazo de 15 dias para responder ao segurado.

O retorno

Um dos papéis da Ouvidoria é diminuir a quantidade de demandas judiciais. Este departamento não é um centro de custo, mas um gerador de resultados, esclarece Rivelle. “O cliente busca uma atuação imparcial, justa (baseada na legislação), que atue não como representante da corporação, mas como defensor do consumidor”, acrescenta.

Os números crescem rapidamente. Na Unimed Seguradora, Rivelle conta que em 2016 houve um incremento de 58% na quantidade de reclamações que chegaram à Ouvidoria, em relação a 2015. Isto aconteceu porque a empresa fez uma grande divulgação sobre o trabalho deste canal. “Com isso, houve queda de 27% nas ações judiciais e 41% nos processos junto à ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). “Ou seja, a boa atuação da Ouvidoria evita que as empresas sofram ações judiciais e/ou recebam multas do órgão regulador. Isso protege a imagem da companhia”.

É possível ter um número maior de reclamações no órgão público, mas o crescimento de carteira demonstra que houve queda na proporção.

Os gestores das companhias seguradoras encontraram na Ouvidoria um grande aliado para a melhoria dos processos das empresas, além da fidelização dos clientes. “Quando o cliente sente-se respeitado ele se torna um grande divulgador da marca da companhia”, avalia Rivelle, argumentando que um dos pilares da Ouvidoria é justamente ser uma ferramenta estratégica para melhoria de processos.

O grande engano sobre o trabalho das Ouvidorias acontece porque as pessoas acreditam que elas são apenas um canal de reclamação. Na verdade, esquecem que ela possui representatividade dentro das corporações, pois reportam-se diretamente à presidência e ao conselho das empresas.

Na Tokio Marine, por exemplo, há um intercâmbio constante entre a área de Atendimento do Cliente e os diversos departamentos, empenhados não só em prover as necessidades, mas em exceder as expectativas do cliente. “O contato entre as áreas é fundamental para que todos estejam alinhados quanto a importância de ter uma atitude proativa para prestar um atendimento claro e entender eventuais melhorias que podem ser feitas nos processos e serviços”, explica Masaaki Itakura, diretor executivo de Estratégia Corporativa.

Para corretores

Os corretores de seguros também possuem um canal direto com o seu sindicato para dar andamento às suas reclamações. Em São Paulo, a Ouvidoria do Sincor recebeu em 2016 ligações, com demandas de diversas categorias como dúvidas em relação às comissões, vistorias realizadas sem agendamento e, principalmente, descredenciamento em seguradoras etc.

O titular desta Ouvidoria, o corretor Otavio Milliet, conta que toda reclamação é analisada em parceria com outros integrantes da diretoria, para dar o devido encaminhamento à demanda.

Nos últimos 12 meses, foram abertos 135 processos na Ouvidoria do Sindicato dos Corretores de Seguros de São Paulo, sendo 101 encerrados com reversão (solucionados) e 27 encerrados sem reversão. Há sete processos em tramitação.

“Se você considerar que os processos que chegam à Ouvidoria já passaram por tentativa de solução por parte de algum departamento do Sincor-SP, como Disque Sincor, Assessoria Técnica ou Comissão de Ética, o sucesso em 78,91% dos casos encerrados é bem expressivo”, comenta Milliet.

A esfera anterior à Ouvidoria, neste caso, é o Disque Sicor, que realiza 1600 atendimentos por anos, de acordo com informações de Simone Favaro Martins, vice-presidente do Sindicato. “Neste ponto, as reclamações são das mais diversas naturezas possíveis, mas o índice de reversão é de 74,8%”, comemora Simone.

rural | produto

Onde brota a esperança
A agropecuária é o setor que sempre carrega a esperança de retomada de crescimento no Brasil. Para o mercado de seguros, a esperança na carteira também se renova
Por Amanda Cruz

Em um momento difícil, o Brasil continua contando com o setor que sempre traz a esperança para a retomada do crescimento: o agronegócio. Para 2017, a expectativa é que ocorra uma expansão de 2%, de acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). De 2015 para 2016 o setor teve um acréscimo em sua participação na economia nacional, sustentando seu lugar de carro-chefe, com alteração de 21,5% para 23% de participação e agregando 48% das exportações do País.

Esse otimismo é benéfico também para o mercado de seguros, já que alavanca a procura dos produtores por seguro rural, modalidade crucial para apoiar aqueles que podem ver suas safras arruinadas por fenômenos da natureza e abrangem a atividade agrícola, pecuária, o patrimônio do produtor, crédito e risco de morte.

Esse apoio acontece desde 2005 gra- ças ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, realizado pelo Governo Federal em parceria com seguradoras, que possibilitam que o produtor escolha a companhia que preferir para se proteger com descontos providos pelo incentivo do Estado. “Temos mantido constante relacionamento com o MAPA e direcionado as demandas que os agricultores nos encaminham por meio dos corretores. O diálogo com o Governo Federal é saudá- vel e busca melhorias para os produtores rurais”, afirma Joaquim Francisco, superintendente de Agronegócios da Allianz.

Para onde vai o incentivo

Mesmo com o grande peso e importância que esse incentivo tem, no último ano, a subvenção dada pelo Governo Federal ao seguro rural não foi totalmente utilizada. Essa verba deverá, portanto, ser realocada, conforme explica o corretor da Rural Brokers, Marcelo Westin. “Primeiro, é preciso esclarecer que esta sobra deu-se apenas para as culturas de inverno, sendo ocasionada por diversos fatores. Dentre eles, podemos destacar a incerteza do mercado com relação aos recursos para a subvenção, a diminuição da área plantada de trigo e o dimensionamento de safra de inverno com área superior à demandada na prática”, explica. “Trata-se de verba destinada às culturas de inverno. Como não foram consumidas, serão utilizadas para as culturas de verão”, completa o corretor.

Para aqueles produtores que contrataram apenas apólices para a cultura de inverno, é necessário que procurem um corretor para saber se sua subvenção já foi, ou não, concedida.

Embora seja uma modalidade de grande importância para a economia brasileira, alguns fatores influenciaram nessa baixa utilização. É o que explica Vitor Augusto Ozaki, diretor do Departamento de Gestão de Risco e Recursos Econômicos do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). Ele afirma que, ao contrário do que a primeira leitura possa indicar, o orçamento destinado foi executado. No entanto, outras questões implicaram no aumento da disponibilização do que havia sido previamente decidido. “Em função do problema ocorrido com a seguradora Nobre [que operava com o produto], o comitê decidiu disponibilizar R$ 1,5 milhão a mais para o cultivo de frutas, em caráter excepcional no final do ano. Porém, não houve demanda”, explicou. Ele afirmou ainda que, de qualquer maneira, dos R$ 400 milhões disponíveis, R$ 398 milhões foram usados, ou seja, 99,6% da verba.

A posição da Allianz nessa carteira corrobora com o que foi explicado ❙ pelo diretor do MAPA. O executivo da companhia afirmou que “todo recurso da subvenção que foi disponibilizado no último ano foi utilizado”.

Ou seja, não foi o interesse ou a capacidade dos produtores que diminuiu. Segundo as palavras do corretor Marcelo Westin, não se pode apontar desinteresse “de maneira alguma, pois a busca por esse seguro segue aquecida”, mas a realocação de recursos deu a impressão de que nem todos que poderiam pleitear a subvenção e beneficiar suas produções foram atingidos. Como há crescimento do setor, o natural é que a demanda cresça. Para Ozaki, o motivo dessa diferença está no fato de que houve dificuldade em divulgar esse novo montante disponível no momento adequado para que fosse possível realizar a venda das apólices. Em 2016 foram contratadas 76,3 mil apólices de seguro rural, que garantiram capitais da ordem de R$ 13,26 bilhões, beneficiando 48 mil produtores, de acordo com dados do MAPA.

Em tempos de dificuldades de confiança na administração pública, o PSR ainda pode ser utilizado como um benefício no qual o Governo se empenha em trazer melhoras, sendo esse um dos programas com maior índice de execução orçamentária no Ministério. “O que é necessário é a divulgação antecipada, alocação de volume de recursos orçamentários compatíveis com o setor e incentivo de concorrência entre as empresas que ofertam o produto, para que exista redução de custo para o produtor,o beneficiário”, coloca Ozaki.

Westin concorda que divulgar faz toda a diferença e que é preciso mostrar mais os benefícios dessa ferramenta. “A ajuda é para a estabilidade econômica dos produtores, que mesmo afetados por uma intempérie climática recuperam parte dos valores investidos na lavoura. Isso permite que eles fiquem ativos na safra seguinte, não precisando vender terras ou outros ativos para quitar dívidas”, exemplifica. Mas a corretora não pretende ficar de braços cruzados e já adota medidas de conscientização, seja pelas redes sociais ou indo a campo ficar mais próxima de seus parceiros. Com isso, o projeto é aumentar a carteira da corretora em 15%, pois ainda há espaço no setor.

Descobrindo nichos

Há muito tempo há a intenção do Governo Federal em criar um fundo para catástrofes para evitar danos ainda maiores às plantações e aos animais. Algo que seja ainda mais robusto, pronto para níveis mais severos de sinistros. A discussão vem há mais de uma década e, se parecia tomar força no último ano, pelas longas discussões técnicas, em 2017 a ideia parece ter sido deixada em segundo plano. É o que adianta o diretor do MAPA: “Por enquanto, a discussão sobre o Fundo está parada. Nesse contexto de ajuste fiscal acho pouco provável que a regulamentação ganhe fôlego. Nesse momento, o foco é aumentar os recursos para o PSR e aumentar o número de produtores beneficiados e de área segurada”, afirma.

Chegando como seguradora no Brasil, pois já atuava no mercado de resseguros, a Markel tem procurado seu espaço em novos nichos. O seguro rural já figura entre os interesses da companhia. Prova disso é a parceria formada com a Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav). Leonardo Paixão, presidente da Markel no Brasil, afirma que procurar esses espaços não preenchidos é a meta da companhia no País. “O agro será um foco desde que seja possível trabalhar segmentos específicos dentro desse setor”, adianta.

Portanto, a parceria faz parte dessa filosofia. “No caso, notamos uma demanda pontual das empresas associadas à Andav, que buscavam uma cobertura específica para proteger seus armazéns, que têm certas peculiaridades pelo conjunto complexo de regras às quais estão sujeitos”, explica. A companhia quer manter uma postura mais reservada, já que não pretende trabalhar com massificados, mas investir nos nichos que parecerem promissores, como o rural.

Os nichos nem sempre são tão bem demarcados. A procura por seguros para determinadas culturas criam espécies de sub-nichos na carteira. Na Allianz, por exemplo, a maior procura é pelo seguro de grãos, especialmente soja, milho e trigo. “Isso tem ocorrido pelo fato dessas culturas terem grande produção no Brasil e serem tradicionais em quase todas as regiões, com destaque para o Sul, Centro-Oeste e Sudeste”, conta Joaquim Francisco.

Perspectivas

Em 2016, além do aumento de 87% nas indenizações em 2016, conforme dados da Susep, o MAPA afirma que houve recuperação do desempenho no produto rural, mas os números ganham forma em histórias como a de clientes de Westin em Goiás, que enfrentaram secas em grandes áreas, capazes de paralisar a produção não fosse o seguro contratado. Ou casos de revendas que, por terem a proteção, não precisaram recorrer à execução de garantias como hipotecas. Sem o seguro as pessoas recorrem a esses processos que, na visão do corretor, “além de serem custosos e demorados, perde-se o cliente quando eles chegam ao fim”, opina.

Joaquim Francisco, da Allianz, cita a expertise da companhia como alicerce para acreditar no bom desenvolvimento da carteira. “Nossas perspectivas são muito boas para essa carteira, tendo em vista que o agronegócio tem sido o responsável por amparar a nossa economia. Nossos investimentos têm sido direcionados à área de sistemas e análises de climatologia”. O executivo afirmou ainda que a companhia deverá apresentar, em breve, novidades em seu portfólio de produtos rurais.

O horizonte de plantio no Brasil é vasto em alqueires e pequeno em prote- ção. Apenas 20% da área plantada são hoje seguradas. “Estamos falando do Brasil, um país com vocação agrícola e dimensões continentais. É fácil ver o potencial de crescimento desse produto”, finaliza o corretor.

aposentadoria | previdência privada

Invista hoje, descanse amanhã

Com a reforma previdenciária, abrem-se as portas para as poupanças de longo prazo. Planos de previdência privada despontam como um dos meios de se garantir estabilidade no futuro

Por Lívia Sousa

Anunciada pelo Governo Federal em dezembro passado, a reforma previdenciária finalmente deve sair do papel em 2017. A medida prevê que o trabalhador urbano atinja a idade mínima de 65 anos e contribua por pelo menos 25 anos para obter 76% do benefício. Já para receber a aposentadoria integral, é preciso que o contribuinte pague a Previdência Social por 49 anos. Hoje, se aposenta por tempo de contribuição quem pagou a Previdência por, no mínimo, 15 anos. Para resgatar 100% do benefício, este número é de 35 anos para os homens e 30 para as mulheres. No caso da aposentadoria por idade, eles precisam ter 65 anos e elas, 60. Com a nova regra, a ideia é que posteriormente os números sejam reajustados até se manter o mínimo de 70 anos de idade para ambos.

Toda essa modificação, segundo o Governo, se faz necessária diante da baixa geração de emprego, do rápido envelhecimento da população e da mudança demográfica, que impactam diretamente as despesas da previdência. Só em 2016, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou um déficit de R$ 149,73 bilhões, valor recorde equivalente a pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). O rombo é 74,5% maior que as cifras alcançadas um ano antes, quando somou R$ 85,81 bilhões. Para 2017, o orçamento aprovado pelo Congresso é de menos R$ 181,2 bilhões.

Por outro lado, alguns economistas questionam o cálculo do déficit da Previdência e as limitações provocadas pelo envelhecimento da população com a alegação de que o Governo retira recursos da seguridade social para financiar outras despesas. É o caso da Desvinculação das Receitas da União (DRU), que tem como principal fonte de recursos as contribui- ções sociais e permite o livre uso de 20% de todos os tributos federais vinculados por lei a fundos ou despesas.

Em meio à discussão sobre a necessidade e a maneira como a reforma da Previdência Social está sendo feita, outra preocupação aparece: os brasileiros subestimam o risco real de perda de renda. Apenas 41% da população acredita que há menos de 10% de chance de um evento inesperado impedir sua capacidade de gerar renda, revela estudo elaborado por uma seguradora suíça. Neste cenário, o Governo é visto como a principal fonte de renda em situações de perdas repentinas. As poupanças pessoais ficam em segundo plano.

Especialista em longevidade e membro do Conselho Diretor da Confedera- ção Nacional das Seguradoras (CNseg), Nilton Molina garante que o valor dos benefícios do INSS serão cada vez menores. Assim, para estar presente em toda a sociedade, o Estado jogará uma espécie de cobertor fino à população. “As pessoas de baixo salário sempre estarão cobertas pelo seguro social. Já as de salário médio em diante vão precisar de recursos. O estado que ia prover 100% das necessidades para o futuro vai ajudar, mas menos do que você vai precisar. Portanto, quem ganha melhor terá que se preocupar mais do que se preocupa hoje com poupança futura”, diz ele.

Para Molina, a reforma previdenci- ária, que já deveria ter sido discutida no País há pelo menos três décadas, produz dois efeitos antes mesmo de acontecer: o primeiro, de natureza subjetiva, leva as pessoas a entender a necessidade de se poupar ainda mais; o segundo, de natureza objetiva, considera que o sistema de previdência atual tem um nível de cobertura muito elevado – 92% dos brasileiros recebem salários abaixo do teto. “A reforma induz a diminuição de benefícios em aproximadamente 25% do teto”, pontua.

Reserva financeira

Os brasileiros estão encarando a aposentadoria como um projeto cada vez mais distante. Em uma pesquisa feita pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) em parceria com o Ipsos Brasil, 62% dos entrevistados afirmaram acreditar que a reforma da previdência deve dificultar a aprovação dos pedidos de aposentadoria.

Neste caso, formar uma poupança é uma boa opção. Isso pode ser feito de vá- rias maneiras, como por meio da compra de um apartamento ou investimento em fundos. Contudo, o consultor em previdência e presidente do Fundo Paraná de Previdência Multipatrocinada, Renato Follador, defende que o melhor instrumento para poupanças de longo prazo são os planos de previdência privada, pois carregam estímulos fiscais importantes.

“A previdência privada complementar é um patrimônio com finalidade definida. Como a contribuição é mensal, ela cria disciplina na hora de poupar por meio de um boleto ou um débito em conta, que o participante do plano recolherá antes mesmo de gastar o dinheiro com outras despesas ou compras por vezes supérfluas”, explica. Como o imposto de renda cobrado no resgate antecipado é alto, o dinheiro fica menos ao alcance das mãos e o detentor pensará duas vezes antes de utilizá-lo.

Esta é a grande vantagem macroeconômica do produto, dada a dificuldade de se implantar um sistema de capitalização e manter o regime de repartição na previdência social. Por outro lado, as aplicações em previdência privada são muito concentradas, assim como o sistema financeiro brasileiro – particularmente o sistema bancário, que atinge a massa maior da população. “Isso provoca uma rentabilidade abaixo de outras aplicações financeiras”, argumenta Helio Portocarrero, economista e membro do Comitê de Estudo de Mercado da CNseg.

Segundo ele, seria importante a existência de um mecanismo que induzisse uma competição maior na provisão de previdência privada. Para isso, é preciso que haja uma limitação por risco que possa ocorrer. “Existe a possibilidade de se aplicar na previdência privada um mecanismo que foi aplicado ao sistema imobiliário, que é o do patrimônio de aceitação, o que seria muito útil para que realmente pudesse aumentar a competitividade do setor”.

Eles já pensam no futuro

Contratar um plano de previdência privada está nos planos de Camila Verbisck desde 2015, quando a jornalista passou a trabalhar como Pessoa Jurídica. Hoje, a profissional de 34 anos atua como microempreendedora individual e contribui com a previdência social para ter aposentadoria com base no salário mínimo. A previdência privada, neste caso, seria um complemento.

“Trabalhei com carteira assinada por quatro anos, mas nunca me preocupei tanto com isso porque, na minha cabeça, até eu ter idade de aposentar, não existiria mais previdência pública. Estava pressentindo”, declara.

Com 43 anos de idade, o radialista Leonardo Engelmann cogita seguir o mesmo caminho e vê na previdência privada a maneira de complementar os últimos dez anos trabalhados – tempo que serve de base para que se aposente pelo INSS. “Você faz o que quiser com uma aposentadoria privada. Eu receberia o plano e declararia como renda para aumentar o valor da aposentadoria”, explica ele, que aos 18 anos recusou contratar o produto oferecido por um banco. “Se tivesse feito o contrato naquela época, com certeza estaria mais feliz.”

Quem já aderiu ao plano, por sua vez, elevou o valor da contribuição. Dados divulgados pela FenaPrevi indicam que entre janeiro e novembro do último ano os aportes acumularam R$ 98,17 bilhões, apresentando uma evolução de 19,14% frente ao mesmo período de 2015, quando somaram R$ 82,40 bilhões. Os planos individuais foram os que mais receberam recursos.

Com as famílias “apertando os cintos” em razão da crise econômica, o aumento das contribuições deixa uma questão curiosa: de onde essas pessoas tiram dinheiro para aplicar na previdência privada quando o momento pede corte nos gastos? Na visão do presidente da Federação, Edson Franco, a discussão da reforma contribui para a formação de consciência de que o Estado, sozinho, não vai conseguir prover toda a necessidade do indivíduo na aposentadoria. “As pessoas começam a entender que precisam formar sua própria poupança”, pontua.

Na medida em que elas continuarão precisando complementar a renda, os aportes devem seguir em expansão acima da inflação, pois o segmento é relativamente jovem no País e ainda está em processo de formação e acumulação. “Qualquer segmento de acumulação de poupança de longo prazo depende de um processo de estabilização monetária e econômica para poder crescer, fato que ocorreu somente com o Plano Real. Por isso, a previdência privada cresce muito acima da inflação. Já estamos chegando a reservas de R$ 650 bilhões”, diz o executivo.

A média de idade do investidor que hoje aplica em previdência é de 45 anos, geração que ainda tem uma memória inflacionária. Já as novas gerações tendem a ter uma visão de longo prazo, pois viveram experiências de estabilidade monetária e macroeconômica. Franco pontua que a cultura de poupança de longo prazo muda com o tempo. Assim, o setor tem também a responsabilidade de formar pessoas, ajudá-las a entender a importância desses mecanismos de investimento e de proteção que correspondam a essas expectativas.

Mercado será beneficiado

Os especialistas são categóricos: a previdência privada sempre foi uma necessidade para qualquer pessoa que deseja manter o padrão de vida na velhice e muitos não enxergavam este fato até o anúncio da reforma previdenciária, que agora é considerada a maior “vendedora” dos planos de previdência privada. “Na forma que está sendo desenhada, a reforma irá empurrar muitos contribuintes para a previdência privada, pois os benefícios estarão mais limitados e com prazos mais longos para obtenção”, afirma Ecio Costa, professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócio da Cedes Consultoria e Planejamento. Desta forma, o setor se beneficiará com um maior contigente de contribuintes.

Já o planejador financeiro e sócio da Moneyplan Consultoria, Fernando Meibak, atenta para o fato de que os planos de previdência precisam ter custos menores. Caso contrário, o aconselhável é que as pessoas invistam elas mesmas para o longo prazo. “Os planos de previdência sofreram a concorrência de outros mecanismos de investimento de longo prazo, como Tesouro Direto, que é mais barato. Os custos dos produtos atuais são muito elevados e, com a queda de juros, ficarão menos atraentes”, argumenta.

Ao mesmo tempo em que o mercado cresce, aumenta também o lucro dos bancos que vendem os planos PGBL e VGBL.

Quando e como investir

Em previdência, tempo e dinheiro são fatores fundamentais. Quanto mais se tem um, menos se precisa do outro. Por isso, quem começa a contribuir antes pode contribuir com menos mensalmente do que quem começa mais tarde, para uma aposentadoria de igual valor e iniciada na mesma idade.

Além de poupar por mais tempo, o detentor do plano vai usufruir mais dos juros recebidos no investimento de seu dinheiro. Para se ter ideia, poupando durante 35 anos mais de 2/3 do patrimônio acumulado virá dos juros. Em 30 anos, por exemplo, a previdência privada rende 31% a mais que um investimento num fundo financeiro.

Em alguns casos, pensando no futuro da nova geração, os planos são contratados pelos próprios pais ou avós. Já para quem vai aderir ao produto por conta própria, o ideal é que isso seja feito assim que o participante entrar para o mercado de trabalho.

“A previdência privada, com a coparticipação do empregador, deve ter início o mais breve possível, pois quanto maior o prazo para contribuir maior o montante obtido. É válido lembrar que a previdência sem a coparticipação pode não ser tão interessante, tendo em vista as taxas de administração e carregamento cobradas por todas as instituições financeiras”, declara o especialista em finanças e professor da FAE Centro Universitário, Amilton Dalledone.

PGBL ou VGBL?

Em um primeiro momento as letras podem assustar, mas o que muda é apenas o momento no qual o investidor vai recolher o imposto de renda sobre o capital (no resgate ou no recebimento da renda).

No Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL), modalidade indicada para quem declara o Imposto de Renda pelo formulário completo, o poupador pode deduzir anualmente da base de cálculo do tributo, o valor total das contribuições efetuadas a planos de previdência complementar, durante o exercício social, até o limite de 12% da sua renda bruta, reduzindo o imposto a pagar ou, até mesmo, podendo ter direito à restituição.

Já o Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL) é ideal para quem declara o Imposto de Renda pelo formulário simplificado, para quem se encontra na faixa de isenção do IR, ou para quem já atingiu o limite de dedução previsto para a previdência complementar (12% da renda bruta). No entanto, no momento do resgate ou do recebimento do benefício, o IR incide apenas sobre o valor dos rendimentos auferidos, e não sobre o valor total do resgate ou do benefício recebido, como ocorre no PGBL.

“O produto PGBL e VGBL tem vantagens interessantes. Em geral recomendamos a opção pelo PGBL. O indivíduo precisa ficar muito tempo investido, no mínimo sete anos. Tem que optar pelo regime de imposto regressivo. A taxa de administração do fundo não pode ser acima de 1% ao ano, não pode ter taxa de carregamento”, aconselha o planejador ❙ financeiro Fernando Meibak.

consumidor | comunicação

Estabelecendo contato

A chave para relações bem sucedidas está na comunicação. Sabendo disso, o mercado de seguros agora quer ampliar sua voz

Por Amanda Cruz

Consultar sites como o Reclame Aqui antes de comprar um produto ou contratar um serviço se tornou uma tarefa quase obrigatória. As companhias do mercado de seguros estão por lá e somam milhares de ocorrências, com taxas altas de resolução que, entre as maiores empresas do setor, ficam entre 80 e 90%. Já a porcentagem daqueles que voltariam a fazer negócio com as companhias não é tão boa assim e fica entre 33% e 65%. O top 3 dos motivos das reclamações são velhos conhecidos do mercado: demora na execução dos serviços; cobranças indevidas e lentidão no andamento de resolução do sinistro. Isso mostra que é preciso aparar arestas e melhorar o entendimento entre o seguro e a população.

No mês do consumidor, as ouvidorias das seguradoras, conforme vemos na página 14, parecem empenhadas em manter sua reputação sem manchas, mas no mundo real isso está longe de poder ser uma realidade em qualquer setor. O mercado chegou ao momento de se perguntar: as estratégias de comunicação sobre os produtos têm sido efetivas? Principalmente porque é comum que, fora do nicho especializado, o setor tenha destaque midiático apenas de forma negativa, quando há algum problema.

A busca não é apenas para sanar cada reclamação individualmente. Isso continua a ser muito importante, mas é também encontrar maneiras de utilizar informações e dados para fazer com que a comunicação entre players seja a chave para uma reputação mais condizente com aquilo que o mercado pretende oferecer de produtos e de retorno e ajuda à sociedade.

Com a palavra, os seguradores

Seja nas relações interpessoais ou nos negócios, a comunicação é pauta recorrente, especialmente para aqueles que querem resolver suas diferenças e ver seus projetos saindo do papel. Com o mercado de seguros não é diferente. Quando uma companhia desenha um novo produto para determinado público, a informação sobre a novidade precisa chegar de forma efetiva às pessoas. “Os consumidores querem ter a garantia de atendimento rápido e especializado. Nesse sentido, a disponibilização de diversos canais de atendimento que permitam ao cliente acionar a seguradora por celular, computador ou telefone é essencial para o setor de seguros e aproxima o público das companhias”, opina Ana Beatriz Basso, diretora de Marketing da MetLife no Brasil.

O uso intensivo dos smartphones pode ter dado mais agilidade, mas também traz ainda mais exigências. Como a principal entidade de representação das seguradoras, a Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg) analisa a efetividade de comunicação do setor e propõe mudanças para incrementá-la. É o que afirma Marcio Coriolano, presidente da entidade. Para ele, o mercado se esforça para melhorar a comunicação e parte desse esforço está concentrado em novas mídias. “Claro que ainda há muito que melhorar, mas acredito que esse processo será fortalecido cada vez mais, em benefício das empresas e, claro, dos consumidores”, afirma.

Esse otimismo parte do exemplo que a própria entidade dá: a Rádio CNseg e as ações em mídias sociais, como o Facebook, são ferramentas para modernizar o alcance, especialmente para atingir jovens, que são o foco do Programa de Educação em Seguros, idealizado pela entidade. “Além disso, teremos novidades em breve, incluindo o lançamento de um canal no Youtube”, promete Coriolano. As redes são justamente o que têm dado mais retorno.

Complexo, mas acessível

À primeira vista, o mercado é mesmo complexo e o que muito se ouve conversando com consumidores sobre determinados tipos de seguro é que eles não faziam ideia de que tal modalidade existisse. Sendo assim, quando chega o momento de entender de contratos, coberturas, exclusões e regras de seguro, de maneira geral, é quando se apresenta o momento de mais ruído nesse entendimento. “As pessoas têm dificuldade de entender algumas regras dos contratos e até mesmo de perceber a necessidade de fazer seguro em suas vidas. Mas acredito que essa resistência pode ser vencida paulatinamente mediante uma estratégia de comunicação adequada das empresas e entidades do setor e, claro, a atuação dos corretores”, aponta o presidente da CNseg.

A acessibilidade ao setor chegou, sem dúvidas, por meio da internet e da presença obrigatória nas redes sociais. A comunicação é instantânea e a exigência por agilidade e eficiência é grande e ainda maior quando um assunto de urgência, como um sinistro, entra em cena. Mas, ao contrário do que pode parecer, isso é um incentivo para o aprimoramento e não uma plataforma para se acomodar. “As seguradoras são obrigadas a se atualizar e aperfeiçoar o atendimento para atender as demandas com qualidade”, esclarece.

Apenas ter o digital incorporado às ações não garante o sucesso, o corretor precisa ser treinado para usar os recursos e alcançar mais clientes.

A MetLife vê em sua ferramenta de cotações online para PME um case de sucesso, segundo a executiva da companhia. Isso porque eles cresceram 46% no primeiro mês de utilização, com diminuição no tempo de operação.

Se a contratação é fácil nos seguros mais básicos, como o de automóvel, o consumidor fica familiarizado, começa a pesquisar e se aprimora com a complexidade e as possibilidades de outros serviços e em breve está pronto para comprar mais proteção. Ou pelo menos é isso que se espera. É um processo que pode parecer longo demais, principalmente por ser um mercado com baixa penetração em determinadas carteiras, que quer trabalhar usando todo seu potencial. Mas é preciso ponderar se a falta de demanda e de cultura do seguro não está, justamente, na maneira como o mercado se apresenta, coloca-se e até mesmo como se abstém de algumas questões.

Aplicativos, ouvidorias, cartilhas, campanhas publicitárias, posts e acompanhamento dos memes na internet. Nas estratégias de marketing têm de tudo e o intuito é estar em dia. Tudo é rápido e volátil: qualquer erro pode comprometer reputações e fazer com que a comunica- ção não se estabeleça.

É preciso cuidado

Nenhuma empresa está livre de erros, problemas e a dança de ganhar e perder clientes é eterna. Nenhuma companhia será unanimidade no mercado, mas aquelas que souberem se comunicar melhor ganham uns metros de vantagem na largada. “O pior para a companhia são clientes insatisfeitos”, ressalta Coriolano. Para ele, essas pessoas poderão, rapidamente, multiplicar uma opinião desfavorável sobre a empresa, mesmo entre pessoas que nunca utilizaram o serviço. “Além disso, as reclamações entram nas listas dos Procons, o que sempre é uma propaganda negativa. A melhor maneira de minimizar isso é procurando solucionar queixas e demandas dos clientes rapidamente”, aconselha. É preciso, também, dar espa- ço para que as empresas se mostrem à sociedade. Um processo de evolução que demanda tempo e boa vontade, tanto do receptor quanto do emissor.

A crença de que o mercado é difícil de compreender está sendo desmistificada, até mesmo pela necessidade que o momento econômico impõe. As pessoas têm procurado, por si só ou por meio de seus corretores, entender esse mercado. A MetLife realizou uma pesquisa em julho de 2016 e constatou que as três principais preocupações das pessoas envolvem independência financeira (41%); cuidados com a família (39%) e saúde da família (32%). Todos esses pontos passam pelas ofertas do mercado de seguros e é a comunicação que pode ajudá-los a perceber isso.

Na prática, a estratégia funciona?

O presidente da CNseg acredita que os esforços do mercado estão rendendo frutos para se comunicar com a sociedade em geral e também com os poderes constituídos, dialogando com o Governo, o Congresso e o Judiciário em questões mais técnicas. Ana Beatriz, da MetLife, crê que os espa- ços para as seguradoras se mostrarem estão cada vez mais amplos, especialmente com as redes. É na internet que os esforços têm se concentrado e, embora os meios digitais estejam cada vez mais democráticos, quem têm confiança em interagir com empresas e avaliar seu desempenho por meio das redes são, especialmente, os jovens entre 16 e 35 anos. Todas as faixas de idade são importantes, mas o que esses potenciais consumidores, que deveriam estar no auge de suas atividades de contratação, pensam sobre o mercado?

Principalmente que não basta apenas boa vontade para atingir os objetivos, as iniciativas precisam de efetividade. A Revista Apólice conversou com alguns consumidores da geração Y para que eles dêem a última palavra sobre o que acham da comunicação do mercado, ajudando os players a descobrir como melhorar e alcançar esse público.

Bianca Dalonso, 25, assistente comercial, afirma que não vê, ou não percebe, um grande volume de informações do mercado chegando até ela. Pelo contrário, muitas vezes é preciso ser proativa para entender o que está adquirindo. “Meu corretor é ótimo e me ajuda muito. Geralmente, fico sabendo das novidades de serviços quando vou fazer a renovação [do seguro de automóvel]. Os benefícios para jovens e mulheres que são oferecidos, por exemplo, descobri assim. Apesar disso, a última vez que precisei renovar, optei por um produto e só soube exatamente os serviços aos quais tinha direito quando a apólice detalhada chegou e eu fui lê-la”, conta. Se as seguradoras divulgaram, pelo menos para essa consumidora as campanhas não foram assertivas.

A verdade é que essa tarefa é muito delegada aos corretores, mas, mesmo para eles, é difícil conhecer a fundo e em detalhes todos os produtos das companhias. O que sempre terá um peso maior, de acordo com entrevistados, é a sensação de segurança. Isabella Borrelli, 23, estudante, tem uma apólice para seus equipamentos fotográficos, mas confessa que teve pouco contato com a seguradora. “A companhia na qual eu fechei o seguro me colocou para falar diretamente com a corretora. Tudo que eu preciso trato com ela, ainda mais porque não tive nenhum problema, não precisei acionar o seguro. Mas me sinto mais confiante de andar por aí com a câmera protegida”, destaca.

Já Ana Paula Sanches, 23, produtora de conteúdo, tem na saúde suplementar a referência sobre o mercado e diz que se sente muito bem atendida pela operadora no que diz respeito à rede credenciada e aos processos de atendimento, mas faz uma ressalva: “o reembolso nunca é do valor integral da consulta”. Mesmo com coisas positivas para contar, o contato da profissional de mídia com o mercado não é muito próximo, pois o seguro de vida que possuía anteriormente era relacionado à empresa onde trabalhava e, ao acabar o vínculo empregatício, o produto não foi mantido. “Nunca vou atrás dessas questões. Muito por comodismo e até mesmo por elas representarem um gasto a mais”, confessa. Complementando essa visão, Ana também não vê muitas informações sobre o seguro e, para ela, quando há contato com algum tipo de divulgação as empresas exageram nos pontos positivos e deixam de esclarecer pontos cruciais para a contratação. “Nunca dirão, por exemplo, que determinadas área e coberturas não fazem parte do plano”, aponta. Camila Tiemi,26, auxiliar administrativa, não teve a mesma sorte com o plano de saúde que possui e diz que não está satisfeita com os serviços prestados. “Por coincidência, acabo de ir ao hospital do convênio e descobri que eles não possuem materiais para realização de uma determinada cirurgia”, reclama. Esse descontentamento deve permanecer e, segundo ela, essa é a única maneira que tem contato com o mercado: quando mais precisa. “Não lembro a última vez que vi uma campanha com explicação de algo sobre seguros”, aponta. As propagandas que enaltecem a marca, mas não mostram, de maneira prática, como o produto pode ser utilizado parecem passar despercebidas para os entrevistados.

A verdade é que pouco se pensa em seguro, especialmente na juventude e, se isso está começando a mudar em algumas carteiras, aparentemente se deve muito mais aos problemas enfrentados pelo País do que por outros motivos. É o caso da previdência privada, que ganhou destaque nos últimos meses por conta da reforma da Previdência Social, proposta pelo atual governo [leia mais sobre o assunto na página 22]. “Sobre outras contratações de seguro além do automóvel, sinceramente, não pensava nisso. Agora, penso em previdência privada, porque me assusta imaginar que mesmo quem começou a trabalhar aos 16 anos com carteira assinada, como eu, pode não chegar a receber a aposentadoria. Então, estou começando a cogitar a contratação”, afirma Bianca. Apesar do descontentamento com os serviços que possui hoje, Camila Tiemi também está no grupo dos que pretende dar mais atenção aos investimentos para o futuro. “Tenho interesse porque, sinceramente, eu não acredito que um dia vou conseguir me aposentar”, lamenta.

A comunicação do mercado precisa encontrar caminhos que alcancem as pessoas, que faça com que consumidor e companhia sejam próximos de verdade. É um exercício constante e Ana Beatriz, representante da seguradora, parece concordar que é necessário evoluir. “Essa evolução precisa ocorrer não só na divulgação de novos produtos, mas no pós-venda, aproximando o cliente e a companhia”, endossa. Talvez, para o mercado, seja um bom momento para, além de fazer mais, aprender a falar mais ainda.

evento | posse

Silas Kasahaya assume o CVG-SP

Comunicação e formação profissional serão o foco de seu mandato. Universal Life e reforma da previdência também devem entrar nas discussões da nova gestão

Por Kelly Lubiato

O Clube Vida em Grupo de São Paulo (CVG-SP) está sob novo comando. Em fevereiro passado, Silas Kasahaya tomou posse como presidente da entidade para a gestão 2017-2018. O enfoque de seu mandato será na comunicação e na formação profissional.

“Vamos divulgar as ações da entidade para atrair jovens do mercado”, disse Kasahaya durante a cerimônia de posse, ratificando que a entidade deve aumentar presença nas mídias sociais. A formação profissional, presencial e a distância também serão reforçadas.

Alguns pontos devem marcar a nova gestão, como a discussão do produto Universal Life e a reforma da previdência. Além disso, Kasahaya quer que os associados participem de debates sobre as tendências de distribuição de produtos em novos canais e tecnologia.

Ex-presidente do Clube, Dilmo Bantim Moreira assume agora a presidência do Conselho Consultivo da entidade. “O CVG é a única entidade especializada na formação profissional com enfoque nos seguros de pessoas, com convênio com o Sindicato dos Securitários e com a Universidade Mackenzie”, declarou.

Ele destacou ainda a importância do trabalho realizado pelo Clube, sendo difí- cil encontrar nas seguradoras alguém da área de seguros de pessoas que não tenha passado pelos seus cursos. Na gestão de Dilmo, foi feita uma alteração no estatuto para possibilitar a entrada de corretoras de seguros e resseguradoras. Oito empresas se associaram e outras entradas estão em curso. “Quanto maior o corpo de associados melhor será o serviço ao mercado segurador”, acrescentou.

Novos associados

Durante o período em que Dilmo esteve à frente do Clube, foram realizados 33 eventos, com a participação de 2500 pessoas, além de 80 cursos com 1500 pessoas formadas.

O CVG-SP nasceu com encontros sociais, o que sempre aconteceu durante os 35 anos de sua história. O Clube possui DNA de cursos, palestras, seminários, encontros de relacionamento e inúmeros outras atividades que contribuem para o desenvolvimento do mercado de seguros de pessoas no Brasil.

“Vamos tentar trazer pessoas novas para o Clube. Queremos ser um grande portal para trazer novidades para as seguradoras, com o grande desafio de aumentar e melhorar a comunicação com o mercado. Também temos que trazer novos associados”, projeta o novo presidente.

Entre as ações previstas estão o acolhimento a novas corretoras e resseguradoras, juntamente com a realização de cursos e seminários e inclusão de novos cursos na grade oferecida pelo CVG, principalmente a distância.

soluções | mulheres

Olhar atento ao público feminino

Elas adquirem diferentes tipos de seguros e são mais focadas no benefício recebido. Por isso, as seguradoras não só desenham novos produtos voltados ao público feminino como aperfeiçoam os já existentes no portfólio

Por Lívia Sousa

Com presença no mercado de trabalho cada vez mais sólida e poder aquisitivo maior, as mulheres estão atentas à importância da contratação de um seguro para proteger os filhos, familiares e dependentes. Além disso, se mostram mais abertas e exigentes quando procuram por este tipo de produto. A segunda edição da pesquisa “Mulheres no Mercado de Seguros no Brasil”, produzida recentemente pela Escola Nacional de Seguros, revela que elas têm mais chance de adquirir diferentes tipos de seguros e são mais focadas no benefício recebido. Por serem mais detalhistas na área, continuam sua busca na esperança de encontrar a solução perfeita, enquanto os homens preferem comprar um produto viável a continuar a fazer compras.

De olho nessa questão, as empresas que atuam no segmento não só desenvolvem novos produtos voltados ao público feminino como aperfeiçoam aqueles já existentes no portfólio. As soluções vão desde o seguro para a bolsa, que garante a indenização em caso de roubo ou furto qualificado da bolsa ou pasta a fim de repor os itens perdidos (carteira, documentos, celular, óculos de sol ou de grau, cosméticos, perfume e chaves); aos mais tradicionais, como os seguros de automó- vel e de vida. “Gradualmente elas vêm se conscientizando sobre o planejamento do futuro e prevenção de imprevistos”, afirma o diretor de Vida e Previdência da SulAmérica, Fabiano Lima.

Seguro de vida

O seguro de vida voltado às mulheres criou um diferencial no mercado que resultou na maior atratividade para esse público e na necessidade das seguradoras pensarem em soluções personalizadas, compreendendo as demandas e os tipos de assistência e garantias que fazem a diferença em suas vidas. “Sem dúvida, isso faz com que o produto tenha boa aceitação, à medida que oferece serviços além da cobertura básica dos seguros tradicionais de vida”, garante Lima.

Quem adere a este tipo de proteção tem acesso às coberturas para morte e invalidez permanente por acidente, assistência funeral e sorteios mensais.

O pagamento do valor contratado para diagnósticos de câncer ginecológico ou de mama também está incluso. Nestes casos, dependendo da seguradora, a indenização pode ser utilizada como a segurada preferir, sem necessidade de comprovação de despesas – a renda extra pode servir para custear viagens do tratamento e outras contas não cobertas pelo plano de saúde, por exemplo.

Há ainda descontos em redes de estabelecimentos e profissionais para serviços relacionados com estética e beleza, acesso a informações gerais sobre nutrição, quantidade de calorias de cardápios, dicas de estilo de vida, saúde e bem-estar, segunda opinião médica e assistências residencial, aos filhos e a ví- tima de crime, além de apoio psicológico familiar no caso de doenças, invalidez e falecimento da segurada. Podem ser adicionadas ainda as opções de morte com extensão ao cônjuge, acidente vascular cerebral (AVC), cirurgia coronariana, insuficiência renal crônica, neoplasia e transplante de órgãos vitais.

“Existe uma nova forma de encarar coberturas como esta no mercado e por isso acreditamos no crescimento sustentável dos produtos que compõem a carteira de seguros de pessoas”, declara Leandro Poretti, diretor geral da Sancor Seguros do Brasil.

Seguro de automóvel

Elas são mais atentas no trânsito e nos cuidados com o carro. O relatório Mulheres no Trânsito, divulgados pela Seguradora Líder-DPVAT, aponta que o público feminino respondeu por 25% das indenizações pagas por acidentes em 2015 contra 75% dos homens. Já os dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) mostram que só 11% dos acidentes são provocados por mulheres. A maior cautela diante do volante justifica os descontos oferecidos pelas seguradoras nas apólices de seguro de automóvel, já que elas registram as menores taxas de sinistralidade.

No seguro de automóvel desenhado exclusivamente para elas, são oferecidas coberturas básicas para os casos de colisão, incêndio, roubo e furto, assim como para danos materiais e corporais causados a terceiros. É possível contratar coberturas adicionais, que incluem acidentes pessoais de passageiros, despesas extraordinárias, indenização pelo valor de um novo veículo, cobertura para kit-gás e danos morais. Ao contratar qualquer uma das coberturas básicas, a segurada conta com serviço de despachante gratuito, atendimento em rede de oficinas habilitadas para reparo do automóvel e descontos em serviços de manutenção em centros automotivos.

Já os serviços personalizados incluem carro reserva em casos de sinistro de indenização integral ou danos parciais, reparo ou a troca do vidro trincado ou quebrado no caso de acidente envolvendoapenas os vidros, substituição de faróis, lanternas e retrovisores e assistência com até 400 quilômetros ou quilometragem ilimitada.

Como o carro ainda é um bem de grande valia para os consumidores brasileiros, há a necessidade de se oferecer proteções extras. “Além da proteção ao veículo, as seguradas optam pelo seguro também devido aos benefícios, descontos e vantagens que facilitam o seu dia a dia. Como o serviço de transporte amigo, que em situações de emergência garante o serviço de um taxista”, diz o superintendente do Porto Seguro Auto, Jaime Soares.

Assim, as mulheres também têm acesso ao reparo de eletrodomésticos linha branca, reparos emergenciais help desk, consulta gratuita para pets, servi- ços emergenciais à residência, além de descontos em academias, em clínicas de estética e bem-estar, salas de cinema e eventos culturais.

“Buscamos o aprimoramento da experiência do cliente, com uma visão única da base de segurados, de forma a entender melhor suas necessidades e oferecer, em um único lugar, soluções que garantam proteção completa em todos os seus ciclos de vida”, afirma Marco Antonio Gonçalves, diretor-geral da organizaçãode Vendas do Grupo Bradesco Seguros. A participação das mulheres na base de clientes da empresa passou de 42% em 2014 para 44,9% em 2015. No ano passado, o número saltou para 45,5%.

Oportunidades

Apesar dos avanços significativos, a cultura do seguro ainda está em processo de construção no Brasil, questão que gera oportunidade de expansão nacional do setor e que permanece como o principal desafio do mercado. De fato há muitas janelas para serem abertas neste segmento e, em especial, no público feminino. Além de administrarem seus lares e serem mães em tempo integral, as mulheres ainda contribuem para o crescimento do País, formando mais de 51% de toda a população economicamente ativa. Porém, quando se olha para a parcela da popula- ção que possui seguro, elas representam menos de 30%.

Segundo Leandro Poretti, da Sancor, o mercado de seguros de pessoas é um dos que ainda enfrentam uma grande barreira cultural. “As mulheres são mais conscientes da importância e necessidade dos cuidados para a saúde e bem-estar, mas não enxergam o seguro de vida como uma proteção financeira para o seu bem maior, que é a própria vida”, explica. “Desta maneiram, buscamos inovar e evidenciar os atributos de nossos produtos”, acrescenta.

O poder das mulheres no mercado segurador

Em 2015, de acordo com a pesquisa da Escola Nacional de Seguros, as mulheres representavam 56% do total dos funcionários do setor. O número é bastante similar ao valor encontrado no mercado segurador americano (60%). Durante a negociação com o cliente, elas são mais sensíveis e menos egocêntricas. Na hora de fechar um negócio, se mostram mais éticas e confiá- veis. É o que apontou Fabio Luchetti, presidente da Porto Seguro, durante o evento “Dia Internacional da Mulher – Corretora de Seguros”, realizado pelo Sindicato dos Corretores de Seguros São Paulo (Sincor-SP) na capital paulista. O poder das mulheres no mercado segurador.

“Elas vão nos atributos do seguro e operam com mais carteira que os corretores, trabalham melhor com o leque de produtos”, lembrou o executivo. As corretoras lideradas por mulheres, segundo ele, também apresentam melhores resultados – em geral, um ponto percentual a menos de sinistralidade –, além de maiores índices de renovação.

A segurança que a mulher corretora agrega ao setor se destaca. “A capacidade de conciliar diversas áreas de atuação permite a mulher atender com alta capacidade os níveis de exigências que o mercado de trabalho requer”, declarou.

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