recall

Na Índia, em 2015, a gigante do ramo alimentício Nestlé precisou incinerar 400 milhões de pacotes de macarrão instantâneo que estavam contaminados por metais tóxicos. 27 mil toneladas do produto foram retiradas das prateleiras e também das mãos de distribuidores e consumidores. O custo da operação de recall ficou em torno de US$ 50 milhões e durou meses até a conclusão de todo o processo.

Em 2016, foi a vez de outra gigante ser manchada: a Samsung passou não apenas por um, mas dois processos de recall. O primeiro por causa do Galaxy Note 7, lançado no início de agosto deste ano e descontinuado em outubro, após a impossibilidade de deter os prejuízos. Os aparelhos pegavam fogo ao serem colocados para recarregar e a companhia precisou fazer um recall de 2,5 milhões de unidades. Esse foi o pior recall de smartphones de todos os tempos e, segundo estimativas da Reuters, pode ter custado à Samsung cerca de US$ 17 bilhões, incluindo também o que a empresa deixou de vender.

O que a companhia não esperava é que o smartphone que a fez perder cerca de US$ 26 bilhões em valor de mercado, de acordo com a consultoria Factset, não seria sua única preocupação. Ela anuncia agora um novo recall de 2,8 milhões de máquinas de lavar, depois que mais de 700 pessoas afirmaram que os aparelhos explodiram. Esse caso afetou 34 modelos diferentes de equipamentos que foram vendidos entre 2011 e 2016. Até o fechamento dessa edição, ainda não havia estimativa de quanto esse novo caso deverá custar à sul-coreana.

Fernando Paes, diretor da divisão grandes riscos especiais do Grupo Liberty – LIU –, explica que essas ocorrências acabam acontecendo não por falta de cuidado, mas porque há um longo caminho entre os testes feitos por quem idealiza o produto até maneira como ele será usado pelos clientes. O desenvolvimento de um produto é feito em laboratório, em ambiente controlado, dentro do qual é realizada uma série de testes, expondo seu produto a um grupo de pessoas previamente selecionadas. São consumidores de diferentes costumes, classes sociais, nível de escolaridade etc. Ou seja, a maior diversidade possível.

“A partir do momento que esse produto é colocado à venda no mercado, a companhia perde esse controle e o produto passa a estar sujeito a ainda mais diferentes condições de uso, de percepção, de exposição, de cuidados e de manutenção. Esse ambiente controlado é um dos fatores que leva à perda segurada pelo produto de recall”, ensina o executivo.

O tangível e o intangível se misturam quando o assunto é Responsabilidade Civil Produtos e/ou recall. A operação pode ser assegurada de duas maneiras: dentro da apólice de Responsabilidade Civil ou em uma apólice do tipo stand alone. Essa segunda, mais elaborada, requer um pouco mais de atenção na hora de fechar os pormenores das coberturas. Já a mais simples é uma velha conhecida dos corretores, especialmente aqueles que fecham mais seguros de RC, e geralmente tomam de 10% a 20% da cobertura básica. É o que explica Marcio Guerrero, presidente da Comissão de Responsabilidade Civil da Fenseg.

“Dentro desse produto existem coberturas que protegem a reputação. Não há uma indenização fixa desse custo, porque é difícil colocar um preço nele, mas existem cláusulas de perdas financeiras, lucros cessantes etc. Já nas apólices específicas de recall, isso pode ser mais bem desenhado”, afirma. A cobertura acessória, sublimite, é bem mais restrita.

O seguro de recall cobre os custos para a retirada do produto, custo do produto e os danos causados. “No Brasil, é um seguro recente e com baixa adesão por parte das empresas, apesar de disponível para os mais diversos ramos. Mesmo quando é procurado, a decisão de compra enfrenta uma barreira grande”, afirma Anderson Romani, diretor administrativo de especialidades da JLT Brasil Seguros. O executivo afirma que acredita no crescimento da carteira, especialmente pela repercussão dos casos que vêm acontecendo ao redor do mundo e sendo divulgados. Além disso, a probabilidade é de que com o tempo o seguro fique mais completo.

Há seguro para todo mundo, mas a tendência é tão forte que há seguradoras que já fazem a especialização do nicho, como é o caso da AIG, que disponibiliza ao mercado brasileiro o seguro Produtos Contaminados desde 2009, com grandes empresas nacionais e internacionais do segmento como clientes. “O seguro ampara custos de comunicação em âmbito mundial e conta com a ajuda de consultores especializados para isso. A perda de receita do segurado, que pode ser um dos maiores prejuízos após um evento de recolhimento, também pode ser amparada pela apólice”, afirma Camila Santos, gerente de Seguros de Responsabilidade Civil da companhia.

O caso do macarrão na Índia ainda não foi suficiente para impactar o ramo alimentício brasileiro que, mesmo observando estes problemas, tem poucas empresas contratantes no País. “Hoje, temos também o recall para o setor automotivo, mas nem esse produto é muito comprado”, lamenta Romani.

A preocupação se estende por toda a cadeia. É verdade que há a possibilidade de contratação de coberturas que cubram terceiros, especialmente se a indústria faz seu produto final para que outros o utilizem como parte de sua linha de produção. “Sendo assim, a empresa pode contratar o seguro para o produto que ela está fabricando e vendendo com uma cobertura de RC para terceiros, abrangendo eventuais perdas que possam ser causadas pelo seu produto utilizado”, explica Paes. Isso reforça a segurança, mas cada integrante da cadeia produtiva deve ter sua própria apólice, porque os riscos de cada atividade são específicos.

Antes que seja tarde

Bom gerenciamento de riscos e plano de contingência eficiente. Essas são as duas respostas para que uma empresa seja bem aceita no seguro de recall, seja dentro do RC ou em uma apólice específica. A contratação, portanto, está muito mais ligada ao preparo e à percepção de necessidade das empresas do que ao seu segmento de atuação ou tamanho da empresa. Pois, ao contrário do que muitos imaginam, esse produto não é direcionado para empresas de grande porte, embora elas sejam, atualmente, a maioria entre os segurados. “A maior procura é por empresas de grande porte, com alto controle de qualidade e certificações internacionais. Porém, já observamos que os pequenos e médios empresários também se preocupam com a garantia de um seguro para a continuidade de seus negócios”, afirma Camila.

“A empresa, para ser atendida, não precisa ser uma multinacional. Pode ser uma empresa local que, por um conceito interno, chega à conclusão de que precisa ter esse seguro para atender eventuais problemas que possa ter com a venda ou entrega do seu produto”. O tamanho pode ser importante para a quantificação do risco, já que uma empresa de porte maior com distribuição nacional, e até mundial, significa, provavelmente, um risco de perdas maiores.

Isso mostra que não é só o valor da apólice que conta. “Costumo dizer que de nada adianta uma apólice de R$ 10 milhões para a cobertura. Há danos causados à imagem do produto que, para recuperá-los, seria necessário investimento na ordem de centenas de milhões e quase nenhuma empresa do mercado tem essa disponibilidade em caixa. Portanto, não ter seguro para reputação, recall e imagem é certamente um suicídio anunciado. Nenhuma empresa está longe de falhas, inclusive empresas que possuem marcas consagradas como Samsung, Nestlé, BRF etc.”, enfatiza o executivo da JLT, Romani.

O motivo para esse alerta é que todo o processo do recall é caro: o anúncio para a retirada, os custos do produto, mas o dano à imagem e à reputação pode levar à falência empresas ou linhas de produtos. “Por incrível que pareça, as empresas não perdem o sono com isso. A maioria ainda compra seguro como faziam há 30 anos”, completa.

O impacto à reputação pode ser devastador. Um caso em que o seguro certamente seria negado, mas que mostra muito bem como as empresas podem se comprometer, é o da Volkswagen, ocorrido em 2015. A empresa, que foi denunciada por adulterar resultado da emissão de poluentes dos seus modelos a diesel, assumiu a fraude, com seu presidente nos EUA, Michael Hom, tendo afirmado categoricamente que “estragamos tudo. Nossa empresa foi desonesta”. Esse dolo não teria seguro porque os próprios diretores e demais participantes da alta cúpula da montadora sabiam e compactuaram com o ocorrido, excluindo qualquer cobertura que pudesse ter sido feita. Seria diferente de um dolo cometido apenas por funcionários, conforme lembra Guerrero.

“É claro que esse é um exemplo, mas que sabemos também que empresas como a Volkswagen devem ter um autosseguro que não dependem exclusivamente de uma apólice. Mas é uma empresa de longa relação com o mercado segurador e ressegurador. Nas apólices de RC Geral, por exemplo, o ato do dolo cometido pelo empregado é coberto, mas o do gestor não é”, comenta.

Sendo tão essencial, porque a penetração ainda é tão baixa? Se grandes empresas erram feio, porque as menores acreditam que estão isentas de passar por algum problema sério que comprometa sua atividade? É nisso que as companhias vêm trabalhando. Tanto seguradores quanto corretores precisam conhecer o que estão fazendo. Quando a cobertura é parte do RC, mais simples, o conhecimento é quase geral, mas quando a apólice é específica fica mais fácil de errar e o dano pode ser maior. Além disso, muitas companhias do mercado sugerem confidencialidade na contratação do recall. “Normalmente é algo tratado com a diretoria e os responsáveis do marketing. É restrito dentro da própria empresa. Isso serve para evitar que o gerente de produção ou de controle, ou ainda outro funcionário, acabe relaxando em seus deveres por saber que se um sinistro ocorrer a empresa estará coberta pelo seguro”, alerta Guerrero.

O seguro de RC, recall, danos à reputação ou qualquer outro que caminhe nesse sentido de proteção é flexível, cheio de análises e de detalhes que podem fazer a diferença em momentos críticos. É a certeza de uma empresa de que um infortúnio não será sua derrocada. Romani reforça também que, nos dias atuais, deveria ser impensável não contratar esse tipo de produto, especialmente nas pequenas empresas. “Hoje, diversos canais de mídia podem acabar com a reputação de qualquer empresa ou produto em pouco tempo. As empresas se preocupam com alguns riscos, mas esquecem que esses riscos mudaram. Elas precisam pensar esses novos riscos, principalmente os de imagem. Essa deveria ser a apólice número um das empresas atuais”, opina.

Amanda Cruz
Revista Apólice

*matéria originalmente publicada na edição 216 (novembro/2016)

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