Houve grandes avanços nos dispositivos médicos de detecção de impulsos biológicos. Com a ambição de se tornarem versões reais do “tricorder” de Jornada nas Estrelas, um aparelho com funcionalidades de sensoriamento, computação e registro, produtos como o Scanadu Scout™ são muito promissores para a área de cuidados personalizados. Da mesma forma, produtos como o Samsung Gear S propiciam portabilidade e conectividade avançada, sendo que a interseção dessas tecnologias são os dispositivos vestíveis de detecção de impulsos biológicos.

Os dispositivos vestíveis são muito usados para monitorar a forma física, controlando, além das atividades realizadas, o sono ou a frequência cardíaca, muitas vezes sem transmissor torácico. Em geral, esses aparelhos vêm no formato de pulseira ou relógios que podem ser sincronizados com o celular. Alguns também registram outras informações, como a temperatura corporal, oxigenação sanguínea e respiração.

Os vestíveis são capazes de efetuar uma série de medições relacionadas com a condição física, por exemplo, a função cardíaca pode ser acompanhada por meio do registro da variação da frequência cardíaca e da pressão arterial. Há aparelhos que auxiliam o monitoramento remoto contínuo do paciente, permitindo a redução dos períodos de hospitalização ou propiciando segurança a idosos que vivem sós enquanto alguns têm funcionalidades relacionadas à atividade cerebral. Já outros registram a glicemia dos diabéticos.

O mercado de tecnologia vestível é dinâmico, com lançamentos frequentes de novos produtos para acompanhamento de diversas métricas de saúde além da atividade física. Grande parte dos mais procurados para utilização durante práticas esportivas são presos ao vestuário ou usados como uma pulseira. A última novidade é o conceito “smart clothing” [roupa inteligente]: bonés, camisetas e calças que controlam a atividade realizada e a frequência cardíaca; meias que monitoram a quantidade de passos, distância percorrida e velocidade. Já há também tatuagens que detectam impulsos biológicos, capazes de medir o esforço físico durante o treino ou acompanhar, de forma contínua, a temperatura, atividade realizada e frequência cardíaca.  Além disso, o Google está desenvolvendo lentes de contato que controlarão a glicemia. Com os dispositivos vestíveis, o monitoramento de funções relacionadas à condição física foram muito além dos simples podômetros.

Tendências do mercado de tecnologia vestível

Os dispositivos vestíveis são cada vez mais conhecidos e utilizados. Uma pesquisa da Endeavor Partners revela que 35% dos usuários adquiriram o equipamento há menos de três meses e mais de 60% nos últimos seis meses. Já segundo um estudo da Nielsen, realizado em março de 2014, 70% dos consumidores sabiam da existência da tecnologia e 15% a utilizam no dia a dia.  A maioria desses usuários constituía-se de jovens com maior poder aquisitivo. De acordo com a Nielsen, quase a metade tem entre 18 e 34 anos e, 29%, com renda anual acima de US$ 100.000. Os dispositivos mais procurados (61%) são os monitores de atividades físicas do tipo “fitness band”, seguidos de “smart watches” [relógios inteligentes] (45%). Segundo 57% dos usuários daquele equipamento, o principal motivo para utilizá-lo era o monitoramento do exercício realizado e os cuidados com a saúde. Uma das questões investigadas dizia respeito à continuidade do uso. A pesquisa Endeavor Partners indica que quase um terço dos usuários que o adquiriram há mais de 12 meses já não o usam mais. Essa tendência diminuiu, no entanto, com o aprimoramento da funcionalidade, vida útil da bateria e estilo dos dispositivos.

Apesar da grande expansão do mercado de tecnologias vestíveis nos últimos anos, as previsões para o futuro variam muito. Segundo um estudo da Gartner, em 2014, venderam-se mais de 70 milhões de dispositivos com funcionalidades relacionadas à boa forma. Prevê-se o maior crescimento na categoria de “smart clothing”. A empresa acredita que, até 2015, os “smart watches”, não incluídos nessas estatísticas, superarão as pulseiras em termos de preferência do consumidor. De acordo com projeções da Juniper Research, em 2018, cerca de 130 milhões de unidades serão despachadas em todo o mundo. Para o Credit Suisse, que considera a tecnologia vestível a “próxima onda”, as vendas deverão disparar de algo entre US$ 3 e US$ 5 bilhões em 2013 para US$ 50 bilhões nos próximos três a cinco anos. Uma pesquisa da BCC realizada em 2014 revela o mesmo otimismo, prevendo que o mercado global atingirá US$ 30.2 bilhões até 2018. Contudo, há muita incerteza com relação a essas projeções, que dependem de avanços futuros imprevisíveis da tecnologia de detecção de impulsos biológicos, bem como de uma demanda que não há como ser comprovada. Também não se sabe se esses dispositivos serão apenas uma moda passageira ou se virão a tornar-se parte da vida quotidiana, como os smartphones.

Os fabricantes começaram a combinar os recursos de monitoramento oferecidos. A Jawbone, líder do setor, noticiou recentemente a abertura da programação de seu aplicativo, que passará a ser compatível com outros dispositivos. A companhia declarou: “Consideramos fundamental para o futuro dos equipamentos que as empresas permitam que seus algoritmos inteligentes operem em múltiplas plataformas e coletem dados de várias fontes”. Essa abertura facilitará a integração de dados sobre forma física e nutrição. Da mesma forma, a Apple anunciou uma parceria com a Epic e a Clínica Mayo visando à agregação de informações do Apple Watch e do Apple HealthKit com prontuários hospitalares de formato eletrônico. Para compreender o valor dos dados combinados, será necessário resumi-los e analisá-los de maneira significativa. Devido ao grande número de empresas no segmento, essa agregação representará um desafio para as empresas menores, que concorrem com gigantes como a Apple.

Programas de “wellness”

Fabricantes como a Garmin, Fitbit e Fitbug estão expandindo a oferta de produtos para os projetos empresariais de “wellness”, nos quais a atividade física dos participantes é acompanhada por dispositivos de monitoramento, mas que não se limitam a esse controle, incluindo também premiações e desafios, bem como interação social entre os funcionários. Comunidades voltadas à boa forma física Para os usuários da tecnologia vestível, é possível fazer parte de redes de contato por meio de empresas como a EveryMove, que oferecem uma plataforma de comunicação e recompensas para a realização de exercício físico mensurado. Os participantes também podem receber descontos em produtos ou fazer doações a entidades beneficentes. A MANA Nutrition lançou um programa de caráter filantrópico no qual os envolvidos são incentivados a praticar atividade física quantificada para fornecer, a crianças com problemas de nutrição, Alimentos Terapêuticos Prontos para o Uso (ATPU).

O conceito “wellness” e a área de seguros

Em 2000, a seguradora sul-africana Discovery Insurance tornou-se a pioneira na oferta de descontos relacionados a iniciativas de estímulo aos hábitos saudáveis; nos dias atuais, as recompensas pela mudança comportamental permanente vão se tornando cada vez mais comuns em todo o mundo. Em geral, para receber o benefício, é necessária uma comprovação do exercício realizado por meio, por exemplo, de dispositivos de acompanhamento, grande parte dos quais monitoram a atividade física, bem como a frequência cardíaca e o sono. Esses programas podem visar tanto a atrair indivíduos já em boa forma, saudáveis, quanto a incentivar uma mudança de hábitos entre portadores de afecções crônicas. Por exemplo, podem-se atribuir taxas padrão a clientes com IMC, colesterol ou pressão arterial elevada, porém, oferecer-lhes descontos caso venham a atingir certos objetivos após alguns anos. Normalmente, para avaliar a eficácia do exercício, exigem-se exames e consultas médicas periódicas. Com os avanços tecnológicos, que permitem examinar com precisão outros aspectos da condição física, os dispositivos vestíveis podem ter, para as seguradoras, uma utilidade além do simples monitoramento da atividade.

Vem sendo amplamente estudada, há muitos anos, a relação entre a saúde e a boa forma, que está associada à baixa mortalidade devido à menor incidência de doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. Com iniciativas de estímulo ao exercício físico, é possível reduzir, de maneira eficaz, o risco de doenças cardiovasculares e, conforme já está comprovado, o de afecções crônicas como diabetes, osteoporose e depressão.  Inclusive, entre as empresas e as seguradoras de saúde, os programas de “wellness” já são muito empregados como forma de diminuir as despesas com estes quadros clínicos. Sua eficácia é, com frequência, medida com base no retorno alcançado, ou seja, a relação entre seus custos operacionais e a economia gerada. Os estudos a esse respeito produziram resultados diversos. Segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard, em média, cada US$ 1 investido resulta em uma queda de US$ 3 em despesas médicas. Por outro lado, uma pesquisa da RAND Corporation constatou que as iniciativas relacionadas ao estilo de vida são menos eficazes na redução desses custos do que aquelas voltadas aos problemas resultantes de doenças crônicas. Além disso, a economia só se observou após pelo menos cinco anos de operação do programa. Os produtos relacionados ao “wellness” podem melhorar a experiência dos seguros de proteção. No entanto, apesar de sua popularidade crescente nos últimos anos, a maioria deles ainda é recente demais para que sejam divulgadas estatísticas relacionadas à sua eficácia.

A medida do bem-estar publicada pelo programa Vitality, as iniciativas de “wellness” realmente têm um efeito positivo na experiência da modalidade: entre os segurados com elevado grau de engajamento, constataram-se custos de saúde menores. Além disso, esses participantes apresentam uma experiência de sinistros e caducidade comparativamente melhor. A tecnologia vestível pode ser utilizada para verificar a realização de exercício físico e a participação em programas de “wellness”, contudo, há poucos estudos formais que confirmem a precisão dos dispositivos. A FDA [Agência de Alimentos e Medicamentos] dos EUA é o órgão regulador responsável por equipamentos médicos, inclusive alguns vestíveis de monitoramento de funções relacionadas à saúde. Todavia, não existe regulamentação específica de forma que esses equipamentos podem não ter a precisão desejada. A maioria depende de acelerômetros e GPS para medir distâncias percorridas, assim sendo, em dispositivos diferentes, o mesmo exercício pode apresentar resultados distintos.  Ademais, os monitores de frequência cardíaca com transmissor torácico costumam ser mais precisos que as pulseiras utilizadas com a mesma finalidade. Como a tecnologia vestível desempenha um papel cada vez mais importante no desenvolvimento dos programas de “wellness”, torna-se fundamental verificar sua precisão.

Conclusão

Cada vez mais, os óbitos prematuros resultam de escolhas relacionadas ao estilo de vida. Assim, as seguradoras estão desenvolvendo produtos que possam empregar dispositivos vestíveis no acompanhamento da condição e da atividade física. Tanto essa tecnologia quanto seu mercado continuam em expansão: os fabricantes fazem progressos no sentido de conseguir acesso a outros fluxos de dados e estimular a mudança comportamental por meio de premiações financeiras. Além disso, as novas comunidades virtuais voltadas à boa forma física motivam os participantes com doações para entidades beneficentes como forma de recompensa. Para o sucesso das ofertas de seguros relacionados ao “wellness”, são fundamentais o desenvolvimento eficaz de programas específicos, bem como de tecnologias vestíveis que produzam resultados precisos de maneira constante.

 

Julianne Callaway e Tim Rozar, da RGA Reinsurance Company

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