Edição 193

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entrevista | Rodrigo Belloube
Oportunidades em todas as direções

O novo CEO da Munich Re no Brasil, Rodrigo Belloube, fala sobre os novos desafios do cargo que assumirá em janeiro de 2015, bem como do cenário mundial de resseguros. Com 20 anos de mercado de seguros, o executivo conta que um dos maiores desafios globais será lidar com o comportamento das taxas de juros, baixas em decorrência da estagnação econômica e sem viés de alta, principalmente na Europa e EUA

Kelly Lubiato
APÓLICE: Como está a sua adaptação ao cargo de CEO?
Rodrigo Belloube: Muito tranquila e gratificante. Passei um ano fora do País com o objetivo maior de me lapidar para a nova função, portanto tive tempo suficiente para refletir, conviver com vários colegas mundo afora e conversar com eles profundamente sobre temas de interesse comum, assim como sobre a estratégia e futuro de nossa subsidiária no Brasil. Conheci pessoas fantásticas e muito capazes, que me inspiraram e com as quais existe hoje uma relação muito próxima, parceiros internacionais com quem podemos contar desde já no desenvolvimento de projetos no Brasil, junto com nosso time local, que se de¬senvolveu consideravelmente nos últimos anos e atingiu um nível de maturação avançado. Kurt Müller, presidente da MR do Brasil até o fim de 2014, tem sido um grande parceiro nessa fase de transição, e temos trabalhado juntos para que haja continuidade onde faz sentido manter o status quo, e evolução onde vislumbra¬mos oportunidades a serem aproveitadas.

APÓLICE: O Brasil ainda é um mercado de grandes oportunidades?
Rodrigo Belloube: Em nossa visão, as oportunidades são maiores à medida que os vários elos da cadeia de distribuição de risco têm um enfoque direcionado à inovação, à sofisticação das soluções para o mercado, algo absolutamente necessário para o desenvolvimento do setor. Nosso posicionamento é de parceria estratégica com os clientes que nos escolhem, um ressegurador disposto a ajudar e estrutu¬rar soluções a quatro mãos não só através do resseguro tradicional de um risco específico ou portfólio, mas também na otimização do uso do capital e do balanço de nossos clientes, no desenvolvimento de produtos e serviços, em temas de vanguar¬da como telemática e big data, e no melhor aproveitamento de canais alternativos de distribuição, entre outras frentes.

APÓLICE: Como está o mercado de grandes riscos no Brasil neste momento? A concentração de negócios das segura¬doras afeta as resseguradoras?
Rodrigo Belloube: O resultado agregado do mercado poderia ser me¬lhor. Houve certa ‘comoditização’ do setor, uma mecanização do processo de pulverização de risco, com as negocia¬ções via de regra assumindo um caráter quase unidimensional, focadas predomi¬nantemente na variável preço, cujo valor médio teve trajetória de queda brusca ao longo dos últimos anos. Em parte, isso se deve ao desequilíbrio entre oferta e demanda, em parte porque tínhamos um mercado fechado até poucos anos. Mas não existe almoço de graça: mais cedo ou mais tarde, paga-se a conta. Nossa proposta é disruptiva no contexto em que as garantias podem ser muito superiores às atuais, relevantes para o polo segura¬do e economicamente balanceadas para que os usuários do mercado segurador e ressegurador encontrem nele liquidez e sustentabilidade no longo prazo. Al¬gumas grandes corporações brasileiras já sentiram na pele a diferença entre a escolha por parceiros com estrutura local qualificada e resseguradores com presença tímida no País, em particular em cenários de certa complexidade envol¬vendo sinistros. Quanto à concentração, o mercado de resseguros continua em crescimento: os prêmios cedidos sempre ultrapassam aqueles do ano anterior. O desafio tem sido o resultado que geram, e não a falta de oportunidades em si.

APÓLICE: Que produtos vocês dispo¬nibilizam para a linha de varejo das seguradoras?
Rodrigo Belloube: Atuamos em praticamente todas as linhas no Brasil, ao ponto de sermos uma réplica em menor escala da Munich Re da Alemanha, nosso acionista. Nossos clientes dispõem de acesso irrestrito aos nossos especialistas locais, como também aos internacionais do Grupo, pois temos uma estrutura corporativa flexível e que promove a formação de equipes multidisciplinares e multiculturais para atuar em projetos ou demandas específicas de qualquer natureza. Além disso, entre os quatro pilares de Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil, um enfoca precisamente o desenvolvimento de produtos e servi¬ços, em particular aqueles trabalhados a quatro mãos com nossos clientes a partir de um conceito que chamamos de Innovation Lab.

APÓLICE: A pesquisa é fundamental para o negócio de resseguros. Como a sua empresa investe neste nicho?
Rodrigo Belloube: Localmente, investimos em quatro pilares de pesquisa: otimização de capital, desenvolvimento de produtos e serviços, telemática e big data, e canais de distribuição. Além dis¬so, acessamos os mais variados núcleos de P&D do Grupo Munich Re sempre que há uma necessidade do mercado local que possa ser melhor atendida por equipe internacional. Nosso posicionamento é no sentido de ser um parceiro estratégico relevante para nossos clientes, colabo¬rando com os seus objetivos estratégicos e operacionais, ajudando a quatro mãos na concepção e implementação de ações concretas que viabilizem um crescimento sustentável. O resseguro entra como um elemento de gestão de risco, hedging, e de consolidação da parceria: estamos ao lado de nossos clientes seja qual for o resultado de tais iniciativas.

APÓLICE: Vocês fazem parcerias com o poder público para levantar dados sobre riscos em países emergentes?
Rodrigo Belloube: Sim, temos várias parcerias do gênero. O desenvol¬vimento foi mais rápido naqueles países mais expostos a catástrofes naturais e, portanto mais sensíveis ao tema, mas no Brasil há ainda ótimas oportunidades a serem exploradas, pois o governo pratica¬mente não transfere seus riscos ao setor privado. É inequívoca a tendência ao agravamento dos cenários catastróficos no Brasil. Isso resulta de uma combinação de fatores, desde mudanças no compor¬tamento climático até o adensamento urbano em grandes centros, com maior formação bruta de capital fixo. Em pa¬ralelo, o setor agrícola, em especial, se beneficiaria muito se fosse contemplado com uma política mais arrojada, com maior robustez no subsídio ao prêmio de seguro em apoio ao agricultor. Além de ser uma política social com benefícios diretos a um setor fundamental para a pauta exportadora do País, protegeria os recebíveis dos próprios bancos finan¬ciadores.

APÓLICE: Qual é atualmente o maior risco global?
Rodrigo Belloube: Para o mercado global, penso eu que o principal desafio hoje talvez esteja no comportamento das taxas de juro, baixas em decorrência da estagna¬ção econômica e sem viés de alta principalmente na Europa e EUA, com a consequente pressão sobre o resultado técnico. Capitais alterna¬tivos, como fundos de pensão, vêm buscando remuneração compatível com suas obrigações futuras e, com o cenário descrito e como medida al¬ternativa, aumentando suas posições em contratos catastróficos. Com isso, há um excesso de oferta em mercados específicos, notadamente o americano. Para os jogadores de menor peso, com reduzido ou ne¬nhum valor agregado e cujo modelo depende excessivamente de uma estrutura leve para viabilizar com-petitividade em preços, os mares à frente poderiam ser turbulentos.

APÓLICE: O Brasil ainda é um mercado que desperta interesse internacional?
Rodrigo Belloube: Sim, mas com uma dose maior de realismo. Houve muitas empresas que desembarcaram no País, ou fundos nacionais que investiram em resseguro, pela primeira vez após a quebra do monopólio de resseguro – algo naturalmente legítimo -, mas com planos de negócio bastante ambiciosos que, no agregado, se mostraram inatingíveis. Há também alguma preocupação com o viés exageradamente litigante em alguns nichos, bem como uma ou outra corrente que busca promover reformulações no ordenamento jurídico com nuances quase exóticas. Precisamos manter o mercado nos trilhos e isso significa pensar sempre em qual a melhor solução para o País, e não para atores específicos.

APÓLICE: Comparado ao resto do mundo, o Brasil é lucrativo?
Rodrigo Belloube: O Brasil tem performance inferior à média mundial no âmbito do resseguro. No mercado primário, tem boa rentabilidade, princi-palmente nos segmentos vinculados às camadas sociais em ascensão. O que nos faz acreditar no País é o enorme potencial latente que ainda não despertou, atendida a condicionante de que o foco saia de uma abordagem meramente unidimensional centrada em preço, para outra em que a inovação e agregados sejam a mola propulsora de desenvolvimento.

APÓLICE: As recentes “estremecidas” na economia, com alteração na taxa de juros e alta da inflação, contribuem para piorar a imagem externa do país?
Rodrigo Belloube: O cenário ma¬croeconômico sempre fez parte da equa¬ção quando se analisam as perspectivas de um mercado ou setor, como todos sabemos. E os números dos últimos anos, 2014 em particular, não foram os melhores desde a reforma econômica de 1994, que trouxe a inflação a níveis mais digeríveis. Entretanto, o desempenho do mercado de seguros vem significativamente superan¬do o crescimento econômico, com baixa correlação entre os dois, pois existe uma demanda não atendida de proporções con-sideráveis. No resseguro, o descolamento é um pouco menor. O Brasil continua a ser analisado sob uma lógica de longo prazo e a questão macroeconômica tende a ganhar importância à medida que, e caso, aumente a correlação dela com o comportamento dos mercados de seguro e resseguro, o que ainda não é o caso. Para atores cujas carteiras sejam mais dependentes dos níveis de investimento, como por exemplo as de riscos de engenharia e garan¬tias, o cenário econômico tem outra dimensão.

APÓLICE: Quais carteiras vocês apostam que serão mais promisso¬ras no Brasil?
Rodrigo Belloube: Nós apos¬tamos em nos posicionar como par¬ceiro estratégico de nossos clientes, ajudando a quatro mãos em projetos e iniciativas relacionadas à inovação, à sofisticação da oferta ao mercado, à agregação de valor e serviços a pro¬dutos de forma a atender demandas cada vez mais complexas e especí¬ficas. Em outras palavras, queremos ajudar nossos clientes, no papel de parceiros, a atingir seus objetivos estratégicos e operacionais. Também apostamos em nos tornar um veículo de otimização no uso do capital de nossos clientes, de forma a maximizar taxas de retorno. O resseguro é um instrumento fantástico e versátil, que pode ser utilizado na forma mais convencional, para soluções de riscos específicos ou portfólios, como também como elemento de financia¬mento, de compartilhamento de riscos e resultados. Recentemente, ajudamos uma seguradora brasileira a automatizar seu processo de venda numa linha específica, investindo recursos num sistema lógico avançado que simplifica a interação com clientes potenciais e reduz drasticamente o tempo de venda. Celebramos um contrato cota-parte de longo prazo como forma de selar a parceria. É nessa direção que vemos nossa operação e posicionamento se desenvolvendo.

 

direto de londres | por Luciano Máximo*
Lloyd´s para turistas
Londres é uma das cidades mais vibrantes do globo, isso todo mundo sabe. É também uma das cinco mais visitadas: todos os anos, mais de 15 mi¬lhões de turistas circulam pelas ruas da capital inglesa — o Rio de Janeiro atrai cerca de 2 milhões de visitantes anual¬mente, de acordo com levantamento da consultoria Euromonitor. Mesmo sem nunca ter estado por aqui, muita gente também conhece as principais atrações turísticas londrinas: os tradicionais PUBs, os incríveis museus, se perder nos belíssimos parques, fazer aquela careta para a fotografia ao lado do soldado real de chapéu engraçado que está sempre imóvel, sequer pisca; tentar encontrar os cenários do filme de Julia Roberts e Hugh Grant ao passear por Notting Hill; apreciar a imponência do Big Ben e das Casas do Parlamento em Westminster e caminhar até o Palácio de Buckingham em Saint James ou até Tower of London, onde ficam expostas as joias da coroa sob um esquema de segurança digno de filme do 007.

E tem muito mais… outro dia mesmo eu dei um break nos estudos para passear, porque ninguém é de ferro, não é mesmo? Mas minha escolha fez com que eu me perguntasse: “Não devo ser um turista lá muito normal?” Pois é, entre tantas opções turísticas, decidi visitar o famo¬so e “modernoso” prédio do Lloyd’s of London, que fica no coração financeiro de Londres. A visita permite nos lançar numa impressionante viagem por mais de três séculos de história econômica e política do Reino Unido e do mundo, tendo o seguro e o resseguro como um grande fio condutor. Tudo isso num am¬biente espetacular, que mistura tradição e modernidade o tempo todo.

Eu tive a oportunidade de conhecer o Lloyd’s em Londres pela primeira vez em 2009. Mas foi uma visita profissional, para fazer uma reportagem para a Revista Apólice. Desde então, sempre quis voltar, para explorar cada cantinho desse prédio extraordinário e futurista, projetado pelo renomado arquiteto Richard Rogers (que também assina o museu Pompidou de Paris) e construído entre 1978 e 1984. Do lado de fora, na Lime Street, quem olha logo fica boquiaberto. A estrutura do edifício é única, lembra um enorme robô, com mais de 30 mil toneladas de concreto e mais de 40 mil metros quadrados de revestimentos em aço inoxidável e vidro.

Do lado de dentro, passado, presente e futuro começam a dialogar. O “templo” do seguro tem mais de 300 anos e ainda é o lugar onde corretores, seguradoras e resseguradoras e empresas associadas negociam e compartilham a cobertura de praticamente qualquer tipo de risco imaginável, sempre presencialmente, na base do olho-no-olho, num ambiente com computadores modernos conectados aos mercados financeiros globais e mobiliá¬rio dos séculos 17, 18, 19 e 20, obras de arte e documentos históricos espalhados por toda parte, como apólices de seguro de navios cargueiros, ramo que tornou o Lloyds mundialmente famoso.

Na Underwriting Room, na primeira parte do passeio, os visitantes podem per-guntar aos simpáticos e elegantes guias Peter Fletcher e Robin Erswell sobre as apólices mais esquisitas que já foram fechadas no Lloyd’s. Um deles lembra que, com certeza, foi uma no século 19, quando 40 membros de um clube de uísque de Derbyshire, no interior da Inglaterra, conseguiram uma cobertura contra fogo e roubo de… suas barbas! Mas eles também lembram que alguns riscos são negados pela instituição. É o caso do diretor de cinema Stanley Kubrick. Nos anos 1960, antes da filmagem do clás¬sico “2001: Uma Odisseia no Espaço”, Kubrick procurou os brokers do Lloyd’s em busca de algum tipo de seguro de risco civil para garantir proteção finan¬ceira na eventualidade de ele ter algum prejuízo caso vida inteligente no espaço fosse descoberta pelo homem antes do lançamento do filme.

Ainda no amplo salão de negociação de riscos, onde é possível ver livros de corretagem centenários e vários objetos de escritório antigos, os visitantes apren¬dem que o Lloyd’s of London não ficou conhecido mundialmente só por ser um espaço onde é possível fechar seguro para quase tudo — os seguros mais extrava¬gantes são mais exceção do que regra. Foi lá que grandes empreendimentos da humanidade tiveram, e ainda têm até hoje, a garantia para que fossem condu¬zidos. Exemplos são grandes explorações marítimas e, mais atualmente, o seguro de plataformas de petróleo em alto mar ou de grandes obras de infraestrutura. No Lloyd’s, um pool de seguradores ou resseguradores negocia os vários riscos de um projeto, que acabam fatiados entre os parceiros como forma de garantir a cobertura de um eventual sinistro bi¬lionário sem afetar de maneira muito significativa o patrimônio e a liquidez desses players.

No passado, quando uma apólice era fechada ou alguma boa notícia chegava aos corre¬tores e seguradores de Londres, como, por exemplo, a chegada ao porto de um navio sem o registro de nenhum sinistro, soavam-se duas badaladas do sino de Lutine, cravado no centro da Underwriting Room. Quando chegava má notícia, um navio que afundou, um incêndio que destruiu algumas cons¬truções seguradas pelos membros do Lloyd’s, era apenas um toque. A peça, do século 17 e conservada até hoje, não é mais usada em referência aos negó¬cios fechados atualmente, apenas em ocasiões muito especiais, como a visita da rainha no início deste ano ou o nas¬cimento do primeiro filho do príncipe William com a duquesa Kate Middleton.

O próximo passo da visita é a bi¬blioteca e a Adam Room, onde até hoje funciona a sala de jantar do conselho do Lloyd’s. O detalhe é que o local foi projetado em 1763, pelo arquiteto escocês Robert Adam. Ela sobreviveu ao tempo e esteve sempre do mesmo jeitinho em todas as diferentes sedes do Lloyds nos últimos 250 anos. Uma longa mesa en¬vernizada rodeada de pinturas históricas e antiguidades dão um tom de sobriedade ao local.

O terraço do Lloyd’s of London en¬cerra o passeio, com uma vista magnífica da cidade. Dali, o verde dos parques de Londres, a roda gigante, o Big Ben e tantos outros pontos turísticos da cidade desta vez ficam em segundo plano para mim. Como turista e entusiasta do universo dos seguros, a visita é mais que recomendada!
Serviço

O Lloyd’s of London oferece visitas guiadas para grupos de até 20 pessoas de profissionais do ramo de seguros e estudantes universitários. É cobrada uma taxa de 12 libras esterlinas por pessoa. Para participar é preciso apresentar docu¬mento de identificação com foto. Homens precisam estar usando paletó e gravata; mulheres, roupa social.

Lloyd’s of London
One Lime Street, London, EC3M 7HA
Tel.: +44 (0)20 7327 5733
[email protected]
Faça um tour virtual em www.lloyds.com

* Luciano Máximo, jornalista, é repórter licenciado do jornal Valor Econômico, cobriu o setor de seguros e resseguros na Gazeta Mercantil

 

especial são paulo | sustentabilidade
Por uma vida mais sustentável

Temos que repensar o espaço urbano. Este é o grande desafio da maior cidade do País, cujo Plano Diretor, aprovado em 2014, deverá ditar os rumos da sociedade nos próximos 16 anos

Kelly Lubiato
Uma cidade mais aberta aos ci¬dadãos, com espaços públicos bem utilizados, com o centro ocioso melhor aproveitado, com calçadas mais largas, mais trans-porte público e maior convivência entre as classes sociais. Este é um resumo de uma cidade sustentável, o sonho de muitos paulistas.

Para tentar se aproximar de um planejamento de médio prazo, a cidade de São Paulo conseguiu ver aprovado neste ano o seu Plano Diretor, que tra¬ça as diretrizes para o espaço público nos próximos 16 anos. O secretário de Desenvolvimento Urbano de São Pau¬lo, Fernando de Mello Franco, afirma que a cidade não pode ser vista como fragmentos. “Temos que olhar o qua¬dro violento de diferenças sociais da cidade, dos territórios e dos agentes da população”.

Apesar do plano ter sido apoiado por cerca de 179 entidades de organi¬zação social, o Plano foi contestado por outros setores da sociedades. O econo¬mista Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper, acredita que o Brasil peca pelo excesso de minúcias na sua legislação. “Temos a legislação mais avançada do mundo em diversas áreas, como prevenção de incêndio, preservação de prédios públicos etc, que fracassam porque têm vocação autoritária. As leis deixam pouco espaço para as soluções temporárias. Em que medida a tentativa de regular acaba inibindo a capacidade de tentar?”, questiona Lisboa, que já atuou no mercado de seguros.

Franco diz que a complexidade do Plano Diretor é um reflexo da sociedade. “Ele irá atravessar quatro gestões e não é apenas um plano de Governo. A comple¬xidade e a contradição que ele expressa são reflexos da sociedade. O sonho de ci¬dade tem que ter entrega imediata, com a transformação que todos querem com mudanças econômicas e sociais. Temos que continuar a articulação política que busque a composição e não o conflito”, declara o secretário.

Os especialistas em urbanismo afirmam que uma cidade sustentável deve aprender a conviver com suas diversidades. Um dos exemplos mais claros deste modelo é a cidade de Nova Iorque, que promoveu várias políticas públicas para atingir um patamar social e econômico razoável para todos os grupos. Para o presidente do instituto Urbem, Philip Yang, a cidade precisa encontrar um modelo próprio de go¬vernança, que contemple a sua nova realidade. “São Paulo passou por um processo de inchamento. A população rural se dirigiu aos grandes centros e se concentrou. Por isso, precisamos de um novo modelo de governança, que priorize a ocupação do centro da cidade, a convivência nas calçadas e o fim do apartheid social. Exemplos disso são a Praia de Copacabana, o Central Park ou o Parque do Ibirapuera, que são espaços para a convivência de todos”, esclarece.

Soluções pequenas podem trazer um impacto considerável. O ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, usa o termo “acupuntura urbana” para tratar de pequenas intervenções. Ele foi o respon¬sável pela revitalização da capital para¬naense e diz que toda cidade precisa ter um sonho. “Inovar é começar, deixando espaço para que a população corrija quando o processo não estiver correto. A metáfora de uma cidade é uma tartaruga, exemplo de vida, trabalho e mobilidade juntos, com casco representando a tes¬situra urbana. Se cortássemos o casco – morando em um lugar, trabalhando em outro, separando as pessoas por renda, religião – ela morreria”, exemplificou.

Lerner faz uma conta rápida sobre a cidade de São Paulo: são 5,4 milhões de carros na cidade, que basicamente ocupam 2 vagas (uma na residência e outra no trabalho). Considerando que duas vagas têm quase 50 metros quadra¬dos, podemos dizer que elas ocupam o espaço de quase 5 milhões de moradias populares, junto à malha viária e não no fim do mundo. “Precisamos criar uma pílula anticoncepcional para o carro”, sentenciou.

É importante lembrar que, antes, a sociedade cobrava benefícios básicos para a sua existência (saúde, educação, moradia, emprego). Hoje, as pessoas cobram a mobilidade, sustentabilidade e coexistência social.

A única alternativa para o problema da mobilidade nas cidades é o transporte público, funcionando de maneira inte¬grada. “São Paulo tem jeito. Vejo com bons olhos a prioridade que esta gestão de Fernando Haddad dá ao transporte público e à tentativa de usar áreas pú¬blicas. Curitiba teve compromisso com a simplicidade e a imperfeição. Nós cria¬mos um eixo de vida, moradia, trabalho, tudo junto, ao longo dos corredores de ônibus. Não é viável transporte apenas duas vezes ao dia”, sentenciou Lerner.

O presidente do Grupo BB Mapfre, Marcos Eduardo Ferreira, fala porque o anseio de termos mais qualidade de vida, de morarmos em um lugar mais seguro, vivendo com menos tráfego, numa cidade em que você veja mais as pessoas é de todo mundo. “Acho que o cidadão quer esta cidade. Gostaríamos de ter muros mais baixos e trabalhar mais próximos de casa. Este é um de¬safio que é tem que ser construído nos próximos anos”.

Certamente, a iniciativa privada terá um papel fundamental nesta criação de um novo modelo de cidade. Ela pode fa¬zer uma série de trabalhos em conjunto com o poder público. Os produtos de seguro, em especial, são transformado-res, porque eles podem, de fato, quando acionados, garantir a estabilidade eco¬nômica familiar e a estabilidade social. “Por outro lado”, lembra Ferreira. “me¬lhorar a qualidade de vida das pessoas é bom para os nossos negócios, tanto pela visão econômica quanto pelo fato de sabermos que nossa indústria precisa melhorar o entendimento sobre o tema, disseminando a cultura da proteção e incentivando o planejamento de longo prazo, por exemplo”.

Como empresa, o Grupo BB e Mapfre reformulou toda a grade de tra¬balho no edifício central estabelecendo novos fluxos de horário, para fazer com que as pessoas possam fugir do rush matinal e vespertino. “Há pessoas que conseguiram até 1 hora e meia a mais de convivência familiar”, exemplificou Ferreira.

Uma cidade sustentável, com menor fluxo de veículos, tem muitos benefícios para a sociedade. Para o mercado de seguros, Ferreira pondera que o País precisa ter, independente de carro ou ou¬tro veículo de transporte, bens para que possamos segurar, núcleos familiares para que possamos protegê-los, sonhos para serem realizados. “Existindo isso, com qualidade de vida, com ampliação de renda e maior nível educacional, é sempre bom para o mercado de segu¬ros”, conclui.

 

especial são paulo | automóvel
Outras direções

A produção de veículos passa por um período de retração. Com menos carros 0km saindo das fábricas, o mercado de seguros se prepara para 2015 com mais cautela, mas não deixa de pensar no crescimento

Amanda Cruz
No início do mês de setem¬bro deste ano o banco BTG Pactual divulgou nota oficial dizendo que as perspectivas para o mercado segurador na carteira de automóveis poderiam não ser as mais ani¬madoras. Essa prospecção atingiu ações de empresas do mercado, que se tornou mais cauteloso em suas ações. A venda de automóveis caiu 7,6% e as exportações sofreram um declínio de 35% no primeiro semestre do ano.

As principais expectativas até se¬tembro foram bastante pessimistas, mas hoje as declarações e o cenário passaram por mudança positiva e já se fala de uma forma mais otimista, embora cuidadosa. Quais dessas expectativas vingarão para o próximo ano? A Revista Apólice con¬versou com executivos do mercado para entender como eles enxergam o mercado nesse momento.

Marcelo Goldman, diretor Execu¬tivo de Produtos Massificados da Tokio Marine, afirma que o setor está atento a esses acontecimentos. “O mercado desacelerou um pouco em relação aos últimos anos e isso tem relação com a queda da indústria automobilística, que afeta o nosso mercado. A expectativa de maior crescimento da indústria deverá ser para 2016”, explica o executivo en¬carando uma realidade econômica, com planos muito positivos para a carteira de auto em sua companhia de atuação, com crescimento estimado de 15% dentro da Tokio Marine.

Com o final de 2014 se aproximando, e as renovações de seguro de automóveis sendo negociadas, o mercado precisará saber se a conta irá fechar e como serão as contas para o ano de 2015, que já está próximo. “As vendas até outubro apre¬sentam queda de 8,9%, mas a projeção da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores – Fenabrave – é de que a queda seja de 8% em relação a 2013. Mas o que precisamos olhar pra avaliarmos o impacto é qual o efeito dessa queda na frota total segurável”, reconhe¬ce Fabio Leme, diretor de Produto para Automóvel da HDI Seguros.

A questão central é perceber os números absolutos, aponta Eduardo Dal Ri, diretor de Automóvel da SulAmérica. A indicação é de que cerca de 250 mil veículos, em média, são emplacados por mês. Os emplacados são veículos que circularão no País, que não serão exportados, e também os carros que são importados. Para o executivo, esse número ainda é bastante representativo. “Claro que não estamos crescendo tanto, mas é um número expressivo. Não é uma indústria que parou”, afirma.

A expectativa da CNSeg para o crescimento desse ano está em 7% e, para 2016, 4,5%. Esses números indicam que a entidade passa longe de indicar os dois dígitos que eram habituais nos balanços do mercado. Isso mostra que o momento da economia é delicado e a cautela pode ser uma forte aliada para enfrentar o período.

Mas Tiago das Neves, diretor da uni¬dade de Affinity da Willis, apresenta um caminho que é estudado pelos corretores, que também têm sentido a movimentação diferente do setor. “Este cenário é perce¬bido no mercado de seguros de automó¬vel, principalmente para as corretoras que têm operações direto com montadoras ou concessionárias de automóveis. Neste segmento existe perda de negócio e a solução é fazer mais seguros com menos veículos e complementar a venda com cross selling de outros produtos”, aponta.

Dentro da HDI foi feita uma proje¬ção: se as vendas de carro 0km ficassem estáveis até 2020, ou seja, sem crescimen¬to algum, e repetissem a quantidade de venda o crescimento da frota circulante cresceria 28% e a frota segurável (esti¬pulada em automóveis com até 8 anos de uso), aumentaria 46% até 2020. Leme explica que esses números seriam possí¬veis porque a quantidade de veículos que entra em circulação no País é maior da que entrava entre 2010 e 2011. “Mesmo em um exercício de queda de 3% ao ano, nós prevemos que a frota ainda cresceria”, reitera o executivo da HDI.
Medidas

A percepção de Neves é de que todos os corretores, inevitavelmente, sentem este impacto. Ter capacidade de abrir novas oportunidades de oferta de outros seguros, aumentar a conversão do seguro de automóvel e, para os clientes que não tiverem como suportar o custo de um seguro “completo”, oferecer soluções mais em conta, tais como seguro do casco com assistências, seguro contra terceiros com assistências ou mesmo oferecer apenas a assistência 24h, são as apostas do diretor da Willis. “Tudo isso precisa ser feito, pois não podemos perder a venda”, afirma.

Muito ou pouco impactadas, as seguradora precisarão estudar maneiras de driblar esse período. “Não que as se¬guradoras não estejam preocupadas, mas o Brasil tem, em média, quatro habitantes por veículo. Como a concentração de renda é grande, existe muita demanda reprimida do brasileiro pelo automóvel. O mercado não está saturado”, pontua Dal Ri. O executivo não acredita que o cenário futuro trará crescimento na casa de dois dígitos, como aconteceu nos anos anteriores, mas sim em um ritmo menor. O acumulado de vendas, até outubro, foi de 2,7 milhões de veículos, no mês foram 290 mil. Por isso, o executivo da SulA¬mérica acrescenta que parte da retração nas vendas está ligada também à redução do mercado de crédito disponível. “As ofertas de financiamento estão sendo feitas em menos parcelas, por exemplo.”

Ao que tudo indica, o mercado vai sentir os efeitos da retração, mas possui outros meios de fazer a manutenção das carteiras, conforme explica Fabio Leme, para ele existe o impacto, mas as segu¬radoras irão se adaptar. “O que acontece, naturalmente, é que com essa queda o mercado de seminovos começa a ficar mais aquecido, concessionárias começam a vender mais esses automóveis, gerando muitos negócios”.

Não se tornando refém da recupera¬ção do setor automobilístico, o mercado de seguros projeta seu crescimento em suas próprias novidades. O Seguro Auto Popular, mais uma vez, volta à tona, agora mais estruturado e com mais chances de ser aprovado. Embora esse seja um anseio esperado há muito tempo pelo mercado e nada esteja totalmente definido, uma provável atuação das companhias nes¬se novo nicho ampliaria a carteira. “O seguro popular, que ainda não tem uma definição da Susep, mas está para sair, poderá ampliar a frota de 17 milhões para mais 2 a 4 milhões de carros segurados. Se for aprovado ainda esse ano, ou até o ano que vem, a expectativa é muito melhor, porque ele pode pegar aquela massa que não tem seguro hoje”. A massa a qual ele se refere engloba pessoas que não têm seguro, principalmente porque não podem arcar com o preço, seja do carro seminovo ou antigo. No segundo caso, a falta de peças no mercado também gera relutância dos clientes em potencial, mas esse seguro poderá usar peças recu¬peradas, tornando o acesso mais fácil e mais barato.

“Essa é uma grande esperança que poderá fazer com que a previsão dos números mude”, completa o executivo da Tokio Marine.

Fabio Leme diz que o mercado de seguros vê com otimismo o Seguro Auto Popular, pela possibilidade de ampliar um pouco a faixa de atuação para atender carros mais antigos. Ainda assim, para ele, a frota que apresenta o real cres¬cimento é a de seminovos. “Já existem regulamentações publicadas, e algumas outras que estão sendo aprovadas, e isso deve acontecer ao longo dos próximos meses, mas será preciso um período para operar de forma adequada, em longo prazo, como todo novo negócio”, ressalta.

Dal Ri expõem as razões pelas quais acredita na consagração desse tipo de seguro: “acho que estamos mais perto do que nunca da aprovação, porque a legislação tratará de temas importantes, como as peças usadas e certificadas”, aponta. Ainda em estudo preliminar, há indícios de que esse mercado, quando maduro, tenha um seguro que custará de 10 a 30% mais barato.

“Nós aceitamos carros com até 20 anos de uso. Mas o seguro acaba ficando caro, porque, como temos que fazer o seguro com peças novas, quem tem carro mais velho tem que arcar com um valor muito alto. Essa dinâmica não vai mudar muito se não houver o seguro popular”.
O mercado de São Paulo

Talvez a questão que seja gritante no mercado paulista de seguros de automó-vel é a de roubos e furtos que, junto com o problema da queda de produção, acende a luz de alerta do setor.

Goldman, da Tokio Marine, lembra que São Paulo ainda sofre com os preju¬ízos de roubos e furtos, mas está cami¬nhando a passos largos para minimizar esse problema, já que, no segundo semes¬tre, o Governo da São Paulo colocou em prática a Lei de Desmonte, legalizando esses espaços e fiscalizando e fechando aqueles que não podem se enquadrar den¬tro da medida. “Isso amenizou o índice de roubo e a tendência é de que permaneça assim. Acredito que São Paulo tende a melhorar em termos de contratação de seguro. À medida que o roubo diminui, as seguradoras poderão ter preços melho¬res”, comemora o executivo. As iniciati¬vas governamentais acabam tornando-se peças chaves, pois sem elas a cultura e a insegurança permanecerão as mesmas, impedindo a maior democratização do mercado. A gritante diferença de preços entre regiões do Estado é a prova disso. “O mercado tem milhões de clientes, mas se a gente conseguisse ter índices de violência menores poderíamos ter ainda mais”, pondera o executivo da Tokio Marine.

São Paulo possui um terço da frota circulante do País, mas, exatamente por isso, segundo os executivos, é mais re¬sistente aos impactos dos problemas da indústria automobilística, já que possui um mercado mais parrudo. “O Estado já é o “driver” do crescimento nacional, então este impacto é sim sentido também. A vantagem é que o mercado é maior, o que permite ter uma base grande para buscar receitas alternativas”, assegura Neves. Essas medidas incluem encontrar novas soluções de produto e canais para uma oferta massificada, aumentando a penetração, segundo executivo da Willis.

Fabio Leme, da HDI, também dá mais crédito à colocação de São Paulo no mercado para aguentar o abalo. “Os mercados da região Norte e Nordeste do País devem sentir um pouco mais, porque cresciam em velocidade superior”, diz. Conforme as análises, apesar do trânsito paulista indicar que há um problema de espaço nas vias, essa grande frota garantiu renovações de apólices e, por causa do alto índice de roubos e furtos, uma necessidade muito maior de estar protegido. “54% dos veículos segurados estão no Sudeste, sendo São Paulo, de longe, o maior mercado, com uma forte relação com o PIB do País.

A pulverização da carteira se apre¬senta como uma medida que pode ame¬nizar esses riscos. É certo que São Paulo continua a ser um grande mercado em que ainda há espaço.
O crescimento

O otimismo com o mercado não se esvai, porque junto ao seguro pro¬priamente dito estão as assistências que aproximam seguradora, corretor e segu¬rado. Os carros seminovos continuarão precisando de reparos, manutenção e os clientes continuarão demandando as companhias que puderem dar a eles o atendimento que faz jus ao que esperam. Vidros, parachoques, inspeção, além de benefícios para a casa, ligam os players do mercado e é o ponto mais ressaltado quando a questão sobre como driblar essas barreiras que vem à tona. “Sem dúvidas, hoje o cliente tem mais contato com o seguro através da assistência. Normalmente, o uso da apólice em caso de sinistro é de 7,8%. O das assistências fica entre 30 e 40%”, explica Marcelo Goldman. A cobertura de vidros é res¬saltada pelo executivo como um item que as pessoas usam muito.

Tiago das Neves aposta em um crescimento na casa dos 10% para 2015. “Não vemos espaço para ser muito pior ou melhor que isso. No espírito do mo¬mento político que atravessamos existe uma margem de erro de 2% para cima ou para baixo”, comenta. Para ele, a criatividade será muito mais importante às companhias. “As seguradoras têm sido criativas na busca de novas ofertas e produtos, mas não demonstram querer avançar para segmentos de maior risco ou sinistralidade”, atesta.

A receita da SulAmérica também não é diferente. “Vamos focar muito em atendimento, missão sinistro e lançamen¬to de produtos de produtos novos. Para esse ano posso citar a Franquia Flex, que funciona trabalhando com o valor que o cliente quer e que cabe melhor no bolso dele”, adianta Edurado Dal Ri.

O mercado é otimista. As notícias sobre o assunto não são as melhores, mas a situação de mercado se reflete na maneira somo seus players se colocam diante dos empecilhos impostos. Neves sintetiza essa característica: “O corretor é um profissional otimista. Acredito que os bons corretores saberão encontrar oportunidades que lhes permitam crescer a taxas superiores às apontadas para o seguro auto”, finaliza.

 

especial são paulo | fraudes
A quebra do mutualismo

Seguradoras e segurados têm em suas apólices um contrato de cooperação mútua. Mas quando uma das partes quebra esse acordo, toda a cadeia securitária acaba sendo prejudicada

Amanda Cruz
O mutualismo é base da exis¬tência do seguro, é preciso contar com a cooperação de seguradora e segurado para o melhor aproveitamento de todos que pagam um prêmio, visando o bem-estar futuro em caso de sinistro.

Mas a complexidade de desenvolver uma grande cadeia em que todos cola-boram, e são beneficiados conforme sua necessidade, mostra que a incidência de pessoas mal intencionadas que aproveitam brechas nas apólices para fraudá-las é significativo. Mas há perigo à espreita das seguradoras também entre funcionários e redes credenciadas. O mapeamento de comportamentos suspeitos para futuras investigações sobre fraudes é um pro¬cesso demorado e que, muitas vezes, as companhias têm receio de fazer, pois há o risco de o investigado, caso não sejam comprovadas irregularidades, processe a seguradora por danos morais, devido à acusação. A estimativa do setor é de que 20% dos gastos da companhia estejam re¬lacionados com casos de fraudes. Mesmo assim, ainda é difícil definir com precisão em quanto pode chegar essa conta.

A CNSeg divulgou um documento in¬titulado Sistema de Quantificação de Frau¬des (SQF), com dados de 2013, que traz números que reiteram essa necessidade de atenção do setor. Ele mostra aumento de 27% nas fraudes comprovadas dentro das companhias, sem incluir as suspeitas em que as investigações não foram levadas a diante. Essas comprovações representam R$ 341 milhões, ou 1,2% do total de si¬nistros e 0,8% do que foi arrecadado em prêmios. Em linhas gerais, com todos os ramos do setor que foram pesquisados, os sinistros com suspeita de fraude formam um montante de R$ 2,17 bilhões, que re¬presentaria, nesse período, 7,8% do valor total dos sinistros (R$ 28 bilhões).

A empresa Nortix, que atua com mais de 70 sistemas para seguradoras, ajudando-as a identificar irregularida¬des na hora da contratação da apólice, desenvolveu um sistema de identificação, com um banco de dados que alerta a se¬guradora. “O sistema permite à empresa uma menor exposição à fraude. Ela pode ter a tranquilidade de que o veículo não é irregular e que isso não prejudicará suas operações”, afirma Arthur Giansante, diretor Comercial da empresa.
Questões jurídicas

O Supremo Tribunal de Justiça é o responsável por analisar, em última instância, os casos suspeitos de fraudes contra as seguradoras. Sendo assim, não há muito recursos ao setor além de acompanhar os processos e acatar as decisões da Lei. Os órgãos reguladores e as entidades não possuem nenhuma forma de intervenção. Esse acaba sendo um dos motivos pelos quais muitas vezes as situações não são investigadas até o final. Comprovar essas fraudes requer um investimento que, muitas vezes, as companhias não estão dispostas a arcar, nem tanto pelos custos da ação, mas por um desgaste de imagem da seguradora, especialmente pelo temor de que, caso não seja comprovada a fraude , a segura¬dora saia como “vilã” da questão.

“Quando se fala em quadrilhas espe¬cializadas, trata-se de pessoas que sabem onde e como fazer, com uma prática e que por isso obtém tanto sucesso. E há seguradoras que sabem que o que está ocorrendo na carteira é fraude, mas não conseguem provar”, conta José Roberto Macéa, presidente da Jopema, reguladora de sinistros. Isso faz com que toda cartei¬ra tenha potenciais fraudadores.

Pelos resultados, de acordo com pes¬quisa também realizada pela CNSeg em 2012, 56% das suspeitas em seguros de vida, por exemplo, ficam sem resolução, já que a falta de provas levou R$119 mi¬lhões de reais a serem pagos, ainda que esses sinistros estivessem sob suspeita.

Isso ocorre porque a má-fé do se¬gurado poderia levar a seguradora a se negar a fazer o pagamento, mas sem a confirmação desse ato é extremamente improvável que o beneficiário saia do julgamento sem direito à indenização. Quando o crime é comprovado, mas não houve má-fé do acusado, ele fica sem o direito de receber a indenização, mas não paga criminalmente por isso. Os casos em que não há intenção de fraudar as seguradoras são os mais comuns, já que a complexidade da apólice de segu¬ros, ou a falta de atenção no momento de contratação, faz com que as pessoas acreditem que possuem determinadas coberturas quando, na verdade, não as contrataram.

Para fins de comparação, o Brasil não é o único país que sofre com essas ações. Segundo artigo disponibilizado pelo FBI, órgão do governo dos Estados Unidos, em sua página oficial, a indústria de seguros estadunidense possui cerca de 7 mil companhias que coletam mais de US$ 1 trilhão em prêmios por ano e o país identifica que o custo total por fraudes, mesmo sem incluir o sistema de saúde, é estimado em US$ 40 bilhões por ano. Esses valores mostram que as fraudes custam, em média, US$ 400 a US$ 700, por ano, em aumento no valor dos prêmios para cada família dos Esta¬dos Unidos.
Oportunidade

A carteira de Auto continua sendo uma das mais afetadas, principalmente pelo que é chamado de fraude de opor¬tunidade, que ocorre quando o segurado sofre o sinistro e tenta tirar vantagem da situação. “Ele quer aproveitar para trocar um pára-choque que foi danificado em outra ocasião, por exemplo, mesmo que isso não seja certo, que ele não tenha direito”, exemplifica José Roberto Ma¬cea, presidente da Jopema, empresa de regulação de sinistros.

Outro problema identificado pela Nortix é a omissão de informações. A empresa trabalha com código de chassi, que é a informação que o veículo ganha quando sai da montadora. Dali em dian¬te, outros dados são complementados no Denatran e depois mais informações que vem de uma base do governo. A partir dessa última o risco de fraude já existe. “A base governamental pode já ter problemas, pois os dados podem ter sido omitidos ou corrompidos no pro¬cesso de adesão de novas informações”, conta Djalma Perin, diretor de Vendas e Marketing.

Fazer seguro de um carro 1.8, por exemplo, tem um valor diferente da apó¬lice do 1.0. Se o cliente disser que possui o automóvel 1.0 e ocorrer um sinistro, a seguradora o sistema identificará que os dados estão errados. “Se o cliente falar que errou, vai apenas pagar um complemento. Essa é uma fraude muito comum e é muito difícil de comprovar”, conta Giansante, da Nortix.

A oportunidade também aparece em casos de seguro residencial, conta Ma-céa, que destaca que 50% dos sinistros em casas e apartamentos acontecem por danos elétricos e também que roubos e furtos podem abrir portas para esse tipo de prática. “Há pessoas que aproveitam o dano elétrico e colocam na lista apa¬relhos que já não funcionavam mais há muito tempo. Ou têm suas casas furtadas e, na lista de bens perdidos, incluem o que nem possuíam”, conta.

“No Brasil ainda há uma menta¬lidade muito forte de tirar vantagem. Temos que evoluir no aspecto de cultura social. Evoluímos, mas é necessário aprender mais sobre seguros”, acredita Macéa.

Seguradoras, corretores e prestado¬res de serviço do mercado, juntamente com advogados especializados no setor, sempre se voltam para a questão das fraudes e parecem buscar novas ma¬neiras de detectar os infratores, mas, de acordo com os entrevistados, o mais importante é fazer com que as pessoas entendam que dentro da cesta de produ¬tos do seguro existem diversas pessoas para utilizá-los e que pegar a mais para si faz com que o seguro encareça e os objetivos do mutualismo não sejam alcançados.
Pequenas Ações

Não são apenas as grandes fraudes que têm impacto no setor. Atos apa-rentemente pequenos acumulam-se e podem dificultar a vida de seguradoras e segurados. Confira algumas das mentiras mais frequentes em fraudes:

• Inversão de responsabilidade: esse caso é bastante comum. Geralmente quando há a colisão de automóveis e um deles não possui seguro, indepen-dente da culpa, o motorista segurado assume a responsabilidade para que a companhia arque com as despesas e nenhum dos motoristas seja penalizado;

• Mudar CEP do pernoite: essa ação é frequentemente descoberta em caso de sinistros. Na hora da contratação, para ter abatimento no preço, o comprador diz que o carro possui uma garagem fixa, o que acaba não sendo verdade. Muitas vezes, o pernoite é feito na rua aumentando as chances de roubo;

• Omissão de segundo condutor: ter mais de um motorista para o veículo segurado é algo que pode aumentar o valor do seguro, especialmente se o outro condutor tiver um perfil considerado de maior risco. Por isso, é freqüente que o titular da apólice assuma a responsabilidade em caso de sinistro quando outra pessoa conduzia o veículo;

• Carro supostamente roubado, mas vendido em outro país e capo¬tamento intencional: esses tipos de fraudes são menos frequentes, pois são feitas com mais planejamento;

• Mutilação: foram encontrados causos de fraude em que as pessoas se automutilam para receberem indenização em apólices que cubram a invalidez permanente;

• Morte natural alegada como acidental: as indenizações por morte acidental podem chegar ao dobro do valor do oferecido em caso de morte natural. Por isso, não é raro que as famílias forjem um acidente para conseguir uma cobertura maior;

• Homicídios arquitetados: alguns casos tomaram as manchetes de jornais, como foi o assassinato do casal Manfred e Marísia Von Richthofen, em outubro de 2002, por sua filha Suzanne. A herança, incluindo seguros de vida, em que se encontrava como beneficiária, teriam sido a motivação da mandante, que acabou sendo condenada e não ficando com a indenização.

especial são paulo | estiagem
Soluções em andamento

Mercado ainda se volta aos seguros rurais quando o tema é a estiagem. Com o estado mais populoso do País em crise, segmento tem agora o desafio de criar produtos específicos para secas em grandes metrópoles

Lívia Sousa
Quando estudos alertavam que a água passaria da abundância à escassez em poucos anos, muitos desacreditaram da afirmação e acharam que isso só seria possível num futuro distante. Mas os especialistas não falavam da boca para fora: com 12% de toda a água potável do planeta, o Brasil vive uma estiagem histórica. Nem o Rio São Francisco, o principal do País, escapou.

Além do Norte e do Nordeste, onde a seca já faz parte da rotina há anos, agora é região Sudeste – mais precisamente o estado de São Paulo – que vê o recurso desaparecer. Até o fechamento desta edição da Revista Apólice o sistema Cantareira, responsável por abastecer quase metade da população da Região Metropolitana, operava com 11,6% da capacidade, incluindo a segunda cota de sua reserva. Já o sistema Alto Tietê, que leva água a 4,5 milhões de pessoas da zona leste da capital e atende outros municípios da Grande São Paulo, estava em 8,5%. Ao contrário do primeiro, o Alto Tietê não conta com o chamado “volume morto”. Isto significa que, caso a chuva abaixo da média persista, o sistema secará completamente até o fim do ano. Enquanto a água não cai com a intensi¬dade que deveria, moradores das regiões afetadas vivem no improviso, comércios locais alteram a rotina de trabalho e a produção agrícola chega a níveis críticos.

Ao mesmo tempo em que não faltam discussões sobre os motivos que levaram o estado mais populoso do País a entrar na pior crise hídrica dos últimos 80 anos, pouco se aborda o papel do seguro nestes casos. Neste mercado, a consequência da estiagem acontece de forma indireta e a longo prazo, na medida em que a falta de água impactar na produtividade das empresas seguradas. Mas em cenários catastróficos, companhias podem sus¬pender as atividades por falta do recurso.

“Nesses casos teremos um impacto na saúde financeira das empresas e, consequentemente, na economia como um todo. Naturalmente isso levará as companhias a cortarem custos, o que vai impactar na contratação dos mais diver¬sos seguros, já que em algumas situações a exposição poderá, inclusive, deixar de existir, como os seguros de transporte”, avalia o presidente da corretora de segu¬ros Lockton Brasil, Tony Gusmão.

Já Rodrigo Protasio, CEO da JLT Brasil, afirma que com a escassez do recurso afetando a geração de energia, a população deverá desembolsar ainda mais na conta de energia elétrica, uma vez que as térmicas trabalharão no limite e colocarão em risco os equipamentos, que poderão sofrer mais danos e impactar os seguradores. Mais que a consequência indireta no setor, o executivo reforça que a própria cultura brasileira justifica a falta de diálogo. “Compramos pouco seguro, somos pouco prudentes e ainda acreditamos que moramos em um País abençoado, onde a água não faltará”.

De fato, a estiagem não só surpre¬endeu a população como também o mercado segurador. Habituadas a cobrir alagamentos e inundações, eventos de maior frequência no Brasil até então, as companhias do setor agora tem o desafio de criar produtos específicos que garan¬tam os danos da contínua falta de água, visto que grande parte das coberturas aqui oferecidas continua destinada aos seguros Agrícola e de Florestas.

“É a primeira vez que acontece uma estiagem deste nível em São Paulo. Por isso, até hoje não se falou sobre seguros em grandes metrópoles em situações como esta”, explica Cláudia Melo, gerente de relacionamento com o setor público da resseguradora Swiss Re.
Produtos adaptados

A Califórnia, nos Estados Unidos, vive situação semelhante com a dos pau-listas e paulistanos. Também o mais po¬puloso do país, o estado norte-americano entrou em crise hídrica há três anos e agora tem 81% do território em estiagem extrema e 58,4% do estado em dias de seca excepcional, segundo o Centro Nacional de Mitigação à Seca dos Estados Unidos.

Assim como os sistemas de abasteci¬mento brasileiro, lá as represas chegaram a níveis críticos. Dos 12 principais reser¬vatórios locais, 10 estão com a metade do volume e alguns operam com 11% da capacidade. A pedido das autoridades, desde o início do ano a população tenta reduzir o consumo de água em 20%, ficando sujeita a multa se constatado o uso irregular do recurso.

Outro local que sofre com o fenôme¬no é o Nordeste da China. Enfrentando a pior estiagem das últimas seis décadas, foi preciso recorrer à chuva artificial (pro¬cedimento realizado também no Brasil) para “salvar” a agricultura do país.

A exemplo do Brasil, grande parte do mercado global ainda está voltado aos seguros rurais quando o tema é a estiagem. Mas, alguns países e regiões já trabalham com produtos exclusivos para o cenário, como é o caso da Europa e da própria China, que contam com dois tipos específicos de seguros. O primeiro, corporativo, paga o sinistro em caso de dias seguidos de altas temperaturas; já o segundo é voltado à população: com o aumento do consumo de energia elétrica no período, o serviço garante a cobertura do custo adicional da conta de luz.

Mesmo em países mais quentes, onde a estiagem é recorrente, muitos não estão segurados. Protasio, da JLT Brasil, explica que o serviço geralmente é acessível justamente em cenários onde a seca acontece em longos intervalos (como no Brasil), mas dificilmente se viabiliza em locais no qual já se tornou recorrente, pois nestes casos é comum que o seguro fique mais caro.

“Seguro existe justamente para fazer frente aos prejuízos inesperados. Uma vez que o evento é certo, ele se inviabi¬liza. Desta forma a solução é o governo estar presente e o melhor remédio é poupar, controlar o consumo, ter mais investimentos em represas e no trabalho de reciclagem da água. Cidades como Londres, na Inglaterra, reciclam quase 90% de toda a água”, orienta.

Os serviços oferecidos nestes países podem ser adaptados para utilização também no Brasil, segundo Protasio, jus¬tificando que são os resseguradores inter¬nacionais operando em diversos países, e os operadores de derivativo globais, que podem melhor correr esse tipo de risco. De acordo com o executivo, pelo tamanho e suas proporções continentais, e com a “mão pesada” do governo federal, o País poderia estruturar junto às empresas da área um programa para os estados que melhor lidassem com perdas de secas ou de chuvas severas e para os anos de maior desastre, criando um sistema centralizado de apoio, além de um fundo de catástrofe gerido pelo mercado, com participação do estado e da iniciativa privada.
O que está sendo feito no Brasil

Depois de focar nas catástrofes na¬turais de maior intensidade e frequência (como terremotos, tsunamis e furacões), o mercado segurador começa a se preparar para atuar com mais força no ofereci¬mento de novos serviços de avaliação e mitigação de riscos recorrentes do clima e suas mudanças. De acordo com Tony Gusmão, da Lockton Brasil, essas ativi¬dades devem naturalmente evoluir para novas linhas de negócios de auditoria energética, avaliação de readequações, instalações e gerenciamento, e buscarão auxiliar os segurados na adequação de suas empresas não só para redução do impacto ambiental, mas também para auxiliá-los a conviver com a nova reali-dade climática.

“O mercado segurador encoraja a mitigação de risco. Por ser composto por grandes investidores, eles têm o poder de influenciar corporações, instituições e as famílias que seguram por meio de incentivos ou penalizações na hora da subscrição, assim como também tem o poder de influenciar governos, que tem um papel principal no endereçamento das questões climáticas”, explica Gusmão.

Para isso, as companhias se esfor¬çam para incluir os riscos das mudanças climáticas nos processos de cálculos atu¬ariais com o objetivo de estimar perdas que possam ser suportadas em caso de eventos catastróficos, assim como forne¬cer alternativas de seguros para projetos de energia renovável e investir em com¬panhias e projetos relacionados ao meio ambiente. “Nosso entendimento é que o foco do mercado segurador futuramente será mais abrangente no que se refere aos riscos climáticos como um todo”, afirma o presidente da Lockton Brasil.

A corretora, por exemplo, busca avaliar as exposições a que cada cliente possa estar exposto, considerando todas as variáveis pertinentes de acordo com o momento das análises de risco. Já a JLT Brasil oferece o seguro paramétri¬co, que cobre tanto os danos materiais decorridos de excesso de chuva quanto as consequências causadas pela falta dela. Nesta última, o serviço é destinado aos produtores agrícolas, distribuidoras de água e empresas de geração de energia hidroelétrica.

“O acordo é feito estabelecendo o que é o índice de chuva ou de nível de reservatório (ideal e geralmente feito pelo índice pluviométrico). Uma vez que a variação atinge, ou é superior ao valor acordado como limite, a empresa, no caso uma geradora de eletricidade com menos água em seu reservatório, geraria por consequência menos energia e essa perda seria quantificada em megawatt (MW). Determinado um preço por MW, o segurado receberia o valor da indeniza¬ção, que o permitiria comprar energia no mercado elétrico para fornecer e cumprir seus contratos”, explica Rodrigo Protasio, da JLT Brasil.

Se os produtos específicos para situa¬ções de estiagem em grandes cidades ain¬da são quase inexistentes, por outro lado, Cláudia Melo, da Swiss Re, vê a ausência do serviço como uma nova oportunidade ao segmento. Para ela, são em situações como esta que o mercado segurador deve mostrar sua expertise.

“Acreditamos que no Brasil a oportu¬nidade se dá no ramo de energia elétrica, e por isso a Swiss Re já trabalha para desenvolver o que chamamos de proteção setorial, que ressarce perda financeira do setor de energia elétrica nos casos em que não houver água o suficiente para utilizar energia”, explica. A ação levará em conta as particularidades do País e suas empresas estatais de energia e será implantada pelo Grupo em longo prazo, uma vez que depende de associações, ins¬tituições e empresas públicas e privadas para ser executada.

Além da proteção setorial, a com¬panhia pretende intensificar os seguros agrícolas, comercializando ainda mais o serviço de quebra de safra para toda a cadeia agropecuária.
Desde o início do ano, os níveis dos dois principais reservatórios de São Paulo registram queda constante

SISTEMA CANTAREIRA
Abastece quase metade da população da Região Metropolitana

Dia / mês / nível do reservatório

4 de janeiro: 26,9%
28 de janeiro: 22,9%
1 de fevereiro: 21,9%
25 de fevereiro: 16,9%
1 de março: 16,6%
29 de março: 13,6%
1 de abril: 13,4%
29 de abril: 10,9%
2 de maio: 10,4%
30 de maio: 25% (utilizando a primeira cota do volume morto)
3 de junho: 24,6%
27 de junho: 21,1%
1 de julho: 20,4%
29 de julho: 15,7%
1 de agosto: 15,3%
29 de agosto: 11,3%
2 de setembro: 10,7%
30 de setembro: 6,9%
3 de outubro: 6,4%
31 de outubro: 12,4% (utilizando a segunda cota do volume morto)
4 de novembro: 11,9%
7 de novembro: 11,6%

SISTEMA ALTO TIETÊ
Abastece a zona leste da capital e atende outros municípios da Grande SP
Dia / mês / nível do reservatório
4 de janeiro: 46,4%
28 de janeiro: 45,4%
1 de fevereiro: 44,4%
25 de fevereiro: 39%
1 de março: 38,9%
29 de março: 37,5%
1 de abril: 37,5%
29 de abril: 36,1%
2 de maio: 35,6%
30 de maio: 30,9%
3 de junho: 30,6%
27 de junho: 26,6%
1 de julho: 25,7%
29 de julho: 21,2%
1 de agosto: 20,7%
29 de agosto: 16%
2 de setembro: 15,3%
30 de setembro: 12,5%
3 de outubro: 12,1%
31 de outubro: 6,6%
4 de novembro: 8,7%
7 de novembro: 8,5%

Fonte: manaciais.tk

 

produto | gestão
Proteção para processos administrativos

Pequenos e médios empreendimentos têm alternativa para se proteger de responsabilização em danos a terceiros

Amanda Cruz
Empreender e construir um negó¬cio que seja promissor e rentável são um desafio que muitas pes¬soas têm se disponibilizado a enfrentar. Além do perfil de empresário, também é preciso uma formação técnica que capacite essas pessoas.

Os empresários precisam ter a consciência de que, especialmente no Brasil, por causa da legislação, a possibilidade de responsabilização por qualquer fator do empreendimento é voltada para seu líder.

As empresas não estão imunes a falhas e críticas, mas, ao mesmo tempo, o empresário não consegue colocar em seu radar gestor todas as possibilidades. Camila Leal Calaias, sócia da prática de Seguros, Resseguros e Previdência do escritório Mattos Filho Advogados, con¬tou, em evento realizado pela AIG, casos que presenciou nos quais, apesar de bem intencionados e com os negócios bem direcionados, empresários tiveram que arcar com processos. Um dos exemplos foi o caso de uma instituição de ensino em que um dos alunos moveu uma ação por causa das condições de limpeza dos banheiros. Outro, uma pequena indústria química, teve um problema com uma das máquinas e, o cheiro exalado pelos materiais, durante uma semana, criou um problema com a comunidade local. O dono da empresa foi responsabilizado.

Em ambos os casos, a pessoa física não tinha culpa do ocorrido, mas teve que responder às acusações. “Ainda que certas questões não estejam em contrato, o empresário será responsabilizado por tudo que fizer parte daquele empreendi¬mento”, destaca Camila.

O empresário precisa estar ciente das facetas que ele precisa enfrentar para gerir bem seu negócio: o relacionamento com clientes, adequando-se e entendendo as necessidades da cada um; a relação empregatícia, evitando problemas de convivência e, em casos mais graves, processos por danos morais; a comu¬nidade, que pode sentir-se incomodada com a presença do empreendimento; e a faceta que se volta aos fornecedores, para garantir a qualidade e desenvolvimento do que é oferecido.

Sendo assim, como é possível pro¬teger-se contra esses riscos? O seguro de D&O pode ser uma alternativa, mas, após sua implementação no mercado bra-sileiro, apenas cinco mil apólices foram emitidas. Isso indica que, apesar de ter extrema relevância para o mercado, ela pode não ser tão abrangente, especial-mente para empresas menores.

Além disso, o D&O contempla acusações contra pessoas físicas apenas, mas, conforme visto nos exemplos, nem sempre há um único responsável por trás dos problemas.

Levantando essas questões, o evento promovido pela AIG apresentou o Gestão Protegida 360°, um produto novo para o mercado que visa proteger as pessoas jurídicas contra reclamações regulatórias, cíveis, administrativas, criminais, con¬sumeristas, ambientais, por negligência, falha, erro, distorção e omissão da socie¬dade com danos a terceiros.

Esse produto deverá abranger todas as coberturas já existentes no conhecido D&O, mas o seu público alvo são as pe¬quenas e médias empresas. “O pequeno e médio empresário tem muita preocupação com reclamações contra a gestão de sua própria empresa. ele, não é suficiente cobrir apenas as reclamações contra a pes¬soa física. Essa possibilidade não existia até o lançamento desse produto.” afirma Lucas Scortecci, gerente de Produtos Financeiros da AIG no Brasil.

 

educação | seguros
Novo comando

Escola Nacional de Seguros contrata Mario Pinto como diretor de Ensino Superior; mudanças da atual gestão incluem novos cursos, MBAs e junção das unidades paulistas

Lívia Sousa
A Escola Nacional de Seguros tem um novo diretor de Ensi¬no Superior. Mario Pinto, que acaba de chegar à instituição, ficará à frente dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão oferecidos pela entidade. “Chego à Escola muito motivado e com o propósito inicial de dar continuidade ao excelente trabalho que vinha sendo desenvolvido. Aos poucos, irei contribuir com meus conhecimentos e experiência para ampliar a oferta de programas educacionais sobre seguros e temas afins na área de ensino superior”, afirma o diretor.

A instituição, que conta com mais de 36 mil participantes em seus programas, registra forte interesse pelos cursos que oferece. Grande parte da procura ainda é feita por quem já atua no mercado se¬gurador, mas o diretor frisa que também há uma crescente parcela de egressos sem vinculação prévia com a área. “É natural que as pessoas se interessem pela Escola, pois sabem que aqui encontram uma ponte para a empregabilidade. A taxa de pessoas que saem empregadas após concluir a graduação está na faixa de 95%. Isso sem contar as que mudam de emprego no decorrer do curso para posições melhores do que as que tinham quando entraram”, explica.

E é justamente pelo aumento da procura que Mario já trabalha para a abertura do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Seguros, com formação de curta duração. Segundo ele, o interesse pela graduação registrou um crescimen¬to expressivo, principalmente em São Paulo, e as vagas disponibilizadas pela instituição – conforme autorização do Ministério da Educação (MEC) – não são suficientes para suprir a demanda atual.

Em novembro, a Escola Nacional de Seguros receberá a visita do MEC para a autorização final do Curso, já em fase de implantação no Rio de Janeiro e que deve entrar em vigor no próximo ano. Para São Paulo, a previsão é de que a aprovação seja realizada apenas em 2015. “Entendemos que este ainda é um início, pois nosso mercado vem crescendo a taxas altas mesmo em épocas em que a economia não está muito forte”, pontua.
Outros projetos

Além do Curso Superior de Tecno¬logia em Gestão de Seguros e da recente adesão da Escola ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), do Governo Federal, estão previstas ainda a abertura de novos MBAs e cursos de extensão – que levará em conta o novo marco regulatório do MEC, a ser anunciado nos próximos dias. Uma sequência de novos cursos também deverá ser aberta ao longo de 2015, assim como o redesenho da graduação em Ad¬ministração, previsto para 2016.

A entidade, de acordo com Mario, também já se prepara para atuar em um novo cenário com a inclusão de meto¬dologias blended (EAD+presencial). “A vantagem de atuarmos em nicho é que nosso tamanho e foco nos permitem estar na vanguarda, visto que não temos a inércia de outras instituições de ensino para fazer as adaptações mercadológicas e tecnológicas”, explica.

Os próximos projetos incluem ain¬da a migração de todas as unidades da Escola Nacional de Seguros da capital paulista para um prédio localizado na Rua Augusta, no centro da cidade, que vai permitir a integração entre os cursos oferecidos pela instituição.

“Em breve, os limites do nicho em que atuamos não vão ser suficientes para nós. Vamos extrapolar o mercado de seguros e oferecer nossa competência para todos aqueles que necessitem de um curso de gestão de primeira linha. Esse processo de reforço de posicionamento já se iniciou e, em 2015, ficará mais claro para a socie¬dade”, conclui o novo diretor.

 

 

marketing | seguradora
Transformar a prestação de serviços em resultados

Zurich Seguros reúne clientes, parceiros e colaboradores para falar das expectativas econômicas para 2105 e na tangibilização dos produtos do mercado

Kelly Lubiato
No momento em que anunciou várias mudanças em seu qua¬dro diretivo (leia no Box), a Zurich Seguros reuniu no Guarujá, em São Paulo, steakholders para discutir a transformação de prestação de serviços em resultados. O vice-presidente da companhia, Werner Stetler, disse que o tema do evento tira as pessoas da zona de conforto, porque abre a possibilidade de discutir de forma aberta maneiras de me¬lhorar os serviços com quem os utiliza.

Paulo Rabelo de Castro, economista, falou sobre a grande preocupação de empresas globais com o cenário mundial. O Brasil, por sua dimensão continental, é virado para o próprio umbigo. “Somos um quadro muito grande e é difícil olhar para a própria moldura”.

Ele usou este exemplo para mostrar que a configuração comercial do Brasil está voltada para as commodities, o que acaba nos distanciando das cadeias globais. A retomada das supply chains vai se tornar crucial em 2015. Apesar do FMI projetar crescimento de 3,3% para o mundo, há fatores que podem refrear ainda mais este número.

O economista citou problemas na economia global que podem afetar diretamente o Brasil, como o caminho de recessão da Europa, e a recuperação frustrada do Japão, além do final do hi¬perciclo das commodities.

Outra recessão na Europa? Castro mostrou a queda do overnight dos bancos europeus mostra que a situação desde 2010 traz taxas próximas a 0,5%. Agora, esta taxa está próxima de 0, que mostra que ninguém está emprestando nada a ninguém. “Você poderia pegar dinheiro barato, mas não tem dinheiro”.

A recuperação das commodities aconteceu de forma espetacular. A crise que vai demandar maior eficiência vai voltar em 2015, mostrando como um dos sinais da crise futura a deterioração da moeda de países emergentes. Vale pres¬tar atenção no que acontece com outros países emergentes, porque o movimento tende a ser geral, atingindo os países de forma distintas.

Como consequência, Castro citou o carregamento financeiro mais oneroso e a moeda dos emergentes tendendo à depreciação. O lado bom é a recuperação das margens da indústria e custo menor do frete internacional.

O desafio político é muito grande e a conta corrente brasileira está bastante pressionada. Os gastos públicos crescem muito acima da capacidade de financia¬mento do País, o que causa o foco infla¬cionário resistente. “Damos o remédio amargo da taxa de juros alta para o setor privado, quando o setor público continua com altos gastos”, avisou o economista.

O freio financeiro prejudica demais as perspectivas financeiras brasileiras. O varejo perdeu o fôlego, com a indústria fragilizada e sem financiamento externo, que fica mais caro. “A festa está acabando, com o crédito entrando em proporção menor. Apesar dele ter alcançado seu maior patamar, agora é pressionado pela alta taxa de juros”. Os recursos livres, de bancos privados, estão em ligeira queda, em torno de 30% do PIB, ante 26% de re¬cursos direcionados, de bancos públicos.

O último ensaio de euforia do varejo foi em 2013 com a retirada do IPI dos produtos de linha branca. Em 2014, houve uma diminuição do ritmo de crescimento, alcançando cerca de 2% no final do ano. “O consumidor ainda não sentiu o ‘belis¬cão’ do cobrador que ele não conseguiu pagar”, brincou Castro.

O problema provém do próprio Go¬verno, que gasta demais e constrange o setor privado a pagar a sua conta. Pior do que o gasto demasiado (se ainda fosse para obras de infraestrutura) ele é estéril, com 60 milhões de contracheques por mês (30 milhões de aposentados, 15 milhões de bolsas-família, 2 milhões de servidores ativos e inativos, 7 milhões de seguro-desemprego).

“Estamos elegendo um síndico sem saber se ele vai varrer o prédio. Estamos diante de um drama político, nem tanto econômico. O Aécio está melhor em fun¬damentos e em sentimentos do mercado. Mas acho que o movimento do PT caso vença, será de melhorar os fundamentos para então reverter o sentimento para positivo. Com o Aécio, o sentimento positivo será elevado assim como os fundamentos da economia”, previu.

O Brasil não é um País entregue ao ilusionismo político. O Brasil tem todas as chances de dar a volta por cima. Só precisa de lideranças políticas que tenham vocação para mudar a forma de pensar. Um novo modelo passa pela simplificação fiscal, pela contenção dos gastos correntes e pela capitalização popular.

Werner Stettler, vice-presidente Corporate da Zurich, disse que o Brasil é prioridade para a companhia, que acabou de assumir os negócios da Via Varejo, que envolvem seguros comercializados nas lojas das Casas Bahia e Ponto Frio. Ela se tornou uma das maiores segura¬doras nesta área e esta é a posição que pretende assumir em outras carteiras também. “Temos uma visão de longo prazo como uma seguradora presente nos dois lados do Atlântico, em mais de 200 países”, afirmou.

A respeito de compra de carteira de outras empresas, Stettler declarou que pelo seu porte a Zurich analisa qualquer negócio que entre no mercado. “Não posso dizer agora se temos 50 coisas no forno ou não, mas posso garantir que qualquer coisa que esteja à venda aparece na mesa da Zurich para ser analisada, seja em riscos de engenharia, riscos financeiros etc”.

Sobre a concentração do mercado, Stettler disse que há uma tendência no seguro corporate dos bancos se retirarem dos grandes riscos. Este ramo acaba se tornando foco das empresas que já atuam na área e que conseguem servir os clien¬tes ao redor do mundo.

O Zurich Corporate Conference 2104 é um evento que reúne anualmente parceiros intermediários e clientes para discutir temas da atualidade. “É muito bom poder trocar ideias fora do ambiente do dia-a-dia e ter a possibilidade de novos contatos”. Esta ação reforça a reivindica¬ção dos seguradoras de que as segurado¬ras devem estar mais próximas do cliente ao longo do ano inteiro e não apenas no momento da renovação do seguro ou da regulação do sinistro.

Nesta 5a. edição, representantes dos corretores de seguros mostraram como avaliam as seguradoras junto aos clientes e como apresentam estes dados às segu¬radoras para que elas possam aprimorar a sua atuação.
Mudanças na diretoria

A Zurich anunciou que Antonio Cassio dos Santos, Chairman for Latin America, Chief Executive Officer (CEO) General Insurance Latin America e CEO General Insurance no Brasil, decidiu sair da empresa em acordo mútuo por razões pessoais. Nesse sentido e devido à importância da região nos planos do Grupo, Mike Kerner, CEO General Insurance do Grupo Zurich, substituiu interinamente Antonio Cassio em sua função de CEO para a América Latina até que seja anunciado seu sucessor.

David Colmenares, atual Chief of Staff General Insurance em Latin Ame¬rica e Head of Personal Lines General Insurance no Brasil, assumiu a função de CEO de General Insurance Brazil desde de 1° de novembro. Ele se reporta a Mike Kerner e está baseado em São Paulo. Além disso, José María Orlando, CEO Global Life Latin America, decidiu deixar a empresa em busca de novas oportunidades profissionais a partir de 31 de dezembro de 2014. Como seu substituto, assumirá Edson Franco, atual CEO da Zurich Santander Brasil, que se reportará diretamente a Kristof Terryn, CEO Global Life do Grupo Zurich, e estará baseado em São Paulo.

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