enchente2No Brasil, infelizmente verão é sinônimo de enchentes e alagamentos, que costumam causar prejuízos materiais a milhares de famílias. Apenas para se ter uma ideia, cada ponto de alagamento formado na cidade de São Paulo após uma chuva forte provoca um prejuízo diário de mais de R$ 1 milhão ao país. O cálculo é de Eduardo Amaral Haddad, professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), e Eliane Teixeira dos Santos, mestranda em Teoria Econômica, em estudo realizado recentemente.

A análise ainda considerou que com 749 pontos de alagamento identificados na cidade, as perdas anuais no âmbito do município chegam a quase R$ 336 milhões. E, se levar em conta os efeitos pelas longas cadeias de produção e renda, o prejuízo subiria para R$ 762 milhões em escala nacional.

É também nos meses mais quentes do ano (geralmente no período de outubro a março) que se concentram os sinistros envolvendo ocorrências relacionadas às fortes chuvas. As seguradoras confirmam este fato. A Tokio Marine, por exemplo, divulgou este mês que a empresa devolveu aos segurados em forma de indenização algo em torno de R$ 1,7 milhão, num total de 516 ocorrências resultantes dos problemas ocasionados pelas chuvas de verão. Esse número de ocorrências é referente aos meses de outubro, novembro e dezembro e envolve seguros empresarial, condomínio, residencial e automóvel.

“Neste período, a população enfrenta diversos problemas e é agora que as grandes chuvas são esperadas, acarretando em enchentes nas regiões próximas aos grandes rios que cortam as cidades, como é o caso principalmente das cidades da região Sul. Nas cidades do interior de São Paulo, temos ocorrência de ventos fortes e chuva de granizo que também acompanham a estação das chuvas”, afirma o diretor de Sinistros da companhia, Alexandre Vieira.

Os clientes atingidos com essas ocorrências acionam a companhia com frequência. Por isso, a seguradora oferece o pagamento de indenizações e assistência 24 Horas. “Em situações como essas, em momentos de perdas, limpeza e reconstrução, é que mostramos a importância e o papel social do seguro”, explica.
De acordo com o executivo, a equipe de sinistros vem monitorando os eventos mais críticos e agindo proativamente se colocando à disposição da área comercial e dos corretores, que muitas vezes ajudam a identificar as áreas mais atingidas – o que permite ações direcionadas, agilizando e muito o reparo dos danos.

Vieira explica que este ano a seguradora mudou o procedimento para atender os sinistros. A equipe passou a acompanhar as notícias pela internet e pelos meios de comunicação e, ao perceber a possibilidade de concentração de chuvas em determinados locais, já entra em contato com as filiais da região afetada e estas, por sua vez, avisavam os corretores. “Quando ocorrer o evento, todos estão previamente preparados e cientes do fluxo de avisos de sinistros que receberão”, sinaliza.

Com isso, alega o executivo, o processo que demoraria por volta de 15 dias – desde o aviso do sinistro até a indenização – passa a ocorrer em 4 dias.

Segundo Vieira, houve aumento mais de 30% nas ocorrências nestes quatro ramos (residencial, empresarial, condomínio e automóvel) em relação ao mesmo período do ano anterior. A justificativa para este aumento inclui o fato de a seguradora ter conquistado mais clientes, refletindo no número de ocorrências, e também as chuvas terem “começado mais cedo”. “Pode ser que no final do verão não ocorram tantas chuvas e com tanta intensidade, compensando estes meses que já passaram”, analisa.

Na SulAmérica, o cenário é similar. No ramo de automóvel, por exemplo, houve aumento significativo nesse período. Do total de ocorrências em 2013 referentes a alagamento, cerca de 40% aconteceram de outubro a dezembro, informa Eduardo Dal Ri, diretor de Auto da companhia.

O executivo conta que, como esses meses de verão são mais propensos a esse tipo de ocorrência, algumas medidas foram tomadas. “Um exemplo é o direcionamento de reboques para lugares estratégicos a fim de facilitar o deslocamento para as áreas onde sabemos que podem ser impactadas pelas chuvas. Além disso, temos os 37 Centros Automotivos SulAmérica (C.A.S.A) para onde procuramos direcionar os veículos. Lá, encaminhamos para a vistoria dos danos, depois para a oficina e autorização dos reparos”, detalha Dal Ri.

Na SulAmérica, os estados do Rio de Janeiro e São Paulo são, comumente, as que apresentam a maior quantidade de sinistros de alagamento. No ramo de automóvel, os dois estados representaram 65% do total de ocorrências em 2013.

O papel do corretor, nesses casos, é orientar o segurado sobre o que ele precisa fazer caso ocorra um sinistro de alagamento. “A primeira providência é ligar para a seguradora para chamar o reboque e avisar o sinistro”, aponta Dal Ri. Se o veículo for considerado indenização integral, o corretor pode auxiliar o segurado na coleta da documentação necessária, mas a seguradora sempre fará contato para auxiliá-lo também, continua o diretor de automóvel da SulAmérica.

Apesar de registrar muitos prejuízos causados por alagamentos, deslizamentos de terra e outros resultados das fortes chuvas de verão, o Brasil não faz parte do time dos países com as piores enchentes no globo terrestre. Pelo menos de acordo com o relatório relatório Global Catastrophe, formatado pela corretora Aon, que listou entre as piores enchentes de 2013 países da Europa central, Alemanha, Indonésia, Filipinas, China e Austrália. Ainda segundo o levantamento, no ano passado o número de sinistros e perdas ligadas a desastres naturais somou 192 bilhões de dólares no mercado global. Desta cifra, 35% correspondem a enchentes em todo o mundo. “Apesar de ser um valor alto, já houve anos piores. A média dos últimos 10 anos é de 200 bilhões de dólares”, observa Jorge Stelmach é Gerente de desenvolvimento de negócios da Aon Affinity.

Analisando os dados da corretora, 2010 foi um ano “pior” nesse sentido para o seguro automóvel, ramo com a maior carteira do mercado. 2011 foi 14% pior que 2010, em termos de eventos ligados a enchentes e alagamentos em sinistros de veículos. Em 2012, os sinistros foram quase metade do que em 2010 – chegou apenas a 57% do número registrado. Já 2013 foi o ano que chegou mais perto de 2010: alcançou 90% do que ocorreu em 2010.

O “seguro básico” de veículos costuma cobrir perdas parciais e totais por enchente e alagamento em água doce. “O que acontece hoje são que as perdas totais são muito pequenas, cerca de 2% a 3%. Os outros 97% são perdas parciais e, nesses casos, há todo um processo que as companhias colocam em prática para recuperar o automóvel”, explica Stelmach.

A expectativa agora é com o mês de janeiro. Conforme os dados da corretora, em 2013, 63% dos sinistros em seguro automóvel relativos a enchentes e alagamentos ocorreram nos meses de janeiro, fevereiro e março. Em 2011, 47% dos sinistros nesse ramo pelo mesmo motivo ocorreram apenas no primeiro mês do ano.

Apesar de não ter nenhuma estatística que comprove que o aumento de ocorrências e sinistros devido às fortes chuvas no período do verão, a Fenseg destaca alguns pontos relevantes sobre o tema:

– O contrato compreensivo básico do seguro de automóvel prevê a cobertura de alagamento, assim como a de incêndio, colisão e roubo e furto. Neste caso, todos os danos causados pelas chuvas, salvo quando são de responsabilidade do motorista, deverão ser indenizados pela seguradora;

– O segurado não terá direito a acionar o seguro em casos de danos provocados por enchentes somente quando tiver contratado apenas o seguro de Responsabilidade Civil Facultativa ou a cobertura de roubo e furto;

– Se for detectada a impossibilidade de reparo do carro, a seguradora indenizará o cliente conforme o contrato estabelecido entre ambas as partes. Quando há possibilidade de reparo, a seguradora realiza lavagem e higienização completa do motor, além da recuperação dos revestimentos e reparos necessários para o funcionamento do veículo;

– Se a seguradora comprovar que os danos causados pela enchente são irreparáveis, o segurado receberá indenização conforme disposição no contrato firmado com a empresa. Apenas uma inspeção será capaz de confirmar a intensidade dos danos causados pela chuva aos veículos;

– No caso de veículos segurados, uma vistoria realizada pela seguradora irá detectar se há possibilidade de reparo e qual é o custo. Se este for maior do que 75%, o veículo será indenizado integralmente.

Já o seguro residencial não oferece cobertura para enchente e alagamento, como ocorre em outros países, como os Estados Unidos, onde a apólice básica já contém essa cobertura. A justificativa das seguradoras para não comercializar a cobertura varia. “Algumas dizem que quem contrataria a cobertura seria apenas quem precisa, ou seja, já teve um caso de alagamento e enchente na região. Com o risco certo, não existe o princípio básico do seguro, que é o mutualismo. Uma solução seria incluir em todas as apólices, mas a questão passa a ser que poderia encarecer o seguro e diminuir a penetração do seguro residencial, que já não é alta. É algo a ser discutido”, opina Stelmach.

Para empresas, a cobertura existe, mas é estudada caso a caso. Não consta no pacote básico para quem contrata o seguro de propriedade, mas as empresas – grandes e médias, geralmente – estão dispostas a bancar o custo. “Ainda assim a cobertura geralmente é para danos causados à propriedade e não costuma cobrir danos causados a estoques, por exemplo”, indica Stelmach.

Jamille Niero / Revista Apólice

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