O artigo da semana passada gerou uma série de perguntas sobre o impacto da queda dos juros nas operações de seguros. Como o tema é importante para o segurado, volto a ele.

A queda dos juros é ótima para a economia, mas com certeza quem vive da remuneração do capital aplicado não vê o movimento com os mesmos olhos. A fila é longa e vai do pequeno poupador da caderneta de poupança ao grande banco, que pode ter sua rentabilidade afetada.

Entre os interessados, as companhias de seguros têm lugar de destaque, tanto pelo impacto na operação, como no resultado patrimonial.

A doutrina clássica diz que uma seguradora tem duas fontes de receita.

O negócio de seguro e o investimento dos ativos. A primeira se destina custear a operação e o lucro da empresa e a segunda deve remunerar o capital dos acionistas.

Começando pela segunda, a queda dos juros tem forte impacto sobre ela. E impacto negativo, já que o dinheiro investido terá uma remuneração mais baixa em função da queda dos juros.

Juros mais baixos significam remuneração menor, ainda que o capital investido seja no mínimo igual ao do exercício anterior. Assim, para que o acionista, no primeiro semestre de 2012, receba a mesma remuneração do exercício de 2011, é fundamental a queda do resultado patrimonial ser compensada pela melhor a do resultado operacional.

É aí que a porca torce o rabo. O resultado operacional de uma seguradora é a soma do resultado industrial com a remuneração da aplicação dos prêmios no mercado financeiro.

Resultado industrial,de forma simplificada, é a consequência direta do negócio de seguro,ou seja,ototaldos prêmios (cem pontos) confrontado com a soma da sinistralidade, despesas comerciais e despesas administrativas (pontos variáveis). Se esta conta, conhecida como índice combinado, der menos do que cem pontos, a seguradora está ganhando muito dinheiro; se der cem, empata; e se der mais que cem, está perdendo.

Já o resultado operacional é a adição aos prêmios do resultado financeiro da sua aplicação no mercado de capitais. Como esta remuneração é consequente do negócio de seguro, é razoável que ela seja utilizada para melhorar o desempenho operacional da seguradora, não devendo ser misturado ao resultado patrimonial.

Faz tempo que algumas carteiras têm, na média, resultado industrial negativo.É o caso dos seguros de veículos, cujo índice combinado está próximo de 108. Ou seja, sem contar a adição da remuneração dos prêmios no mercado de capitais, a seguradora está perdendo 8 pontos.

Num cenário de juros elevados, como o Brasil tinha até alguns anos atrás, era razoável as seguradoras conseguirem taxas de retorno próximas de 15 ou 16 por cento em suas aplicações. E nessa época o índice combinado médio era menor. Assim, fazia todo o sentido se levar em conta apenas o resultado operacional, já que os ganhos reais eram mais do que suficientes para a companhia girar, crescer e remunerar confortavelmente seus acionistas.

Já no final de 2011 o quadro não era tão confortável. E os números do primeiro semestre de 2012 serão mais mesquinhos ainda. Na base da queda há uma explicação simples.A sinistralidade da carteira está subindo, os custos comerciais e administrativos estão estacionados e a remuneração da aplicação dos prêmios ficou menor em função da queda dos juros.

A solução, já que não há como melhorar a remuneração do investimento dos prêmios, seria a seguradora atacar as despesas. O problema é que sua capacidade de ação sobre a sinistralidade é muito pequena.De um lado, ela não pode agir diretamente para reduzir o número de roubos e furtos e, de outro, como decorrência da mudança do perfil da frota segurada, não tem como pagar menos nas indenizações decorrentes de acidentes.

Como as despesas comerciais e administrativas são ainda mais difíceis de serem reduzidas, a lógica seria o aumento do preço do seguro.

E é isto que, mesmo com a forte concorrência segurando o mercado, deverá acontecer ao longo do ano.

Antonio Penteado Mendonça

O Estado de São Paulo

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