A previdência privada teve um primeiro trimestre muito melhor do que em 2009. A captação líquida dos fundos destinados a receber recursos de planos PGBL e VGBL cresceu 57,2% no período, atingindo R$ 4,23 bilhões. E, diferentemente do comportamento do investidor no início do ano passado, o perfil das aplicações hoje revela um apetite muito maior por risco.
Levantamento realizado pelas consultorias NetQuant e Towers Watson com 474 carteiras mostra que, do total captado até março, os fundos com renda variável atraíram R$ 3,13 bilhões, enquanto os de renda fixa, R$ 1,09 bilhão. No mesmo período do ano passado, as carteiras com alguma parcela em ações tiveram resgates de R$ 852 milhões, que acabaram sendo compensados por ingressos de R$ 3,5 bilhões em fundos de renda fixa – o saldo líquido naquele trimestre foi positivo em R$ 2,7 bilhões.
A retomada do ritmo forte de captação da previdência já era esperada. No início de 2009, os investidores ainda estavam digerindo o que se revelou uma das piores crises financeiras da história. “Estava todo mundo evitando o mercado financeiro, em especial a bolsa”, lembra o sócio-diretor da NetQuant, Marcelo Nazareth. Na ocasião, muitas seguradoras chegaram a revelar histórias de clientes que acabaram sacando recursos da previdência para pagar dívidas ou, na melhor das hipóteses, optaram por manter dinheiro em caixa para o caso de emergência.
O Brasil saiu ileso da crise, reconquistou a confiança do investidor e, já em 2009, mostrou números exuberantes. O Ibovespa subiu nada menos do que 82,66% no ano passado. “O apetite por fundos com ações neste ano ainda é reflexo do bom desempenho de 2009”, diz Nazareth.
Tanto que, percentualmente, o crescimento do patrimônio dos fundos com alocação em ações vem se mantendo superior ao dos fundos sem renda variável. Nos últimos 12 meses, as carteiras com até 49% em ações foram as que apresentaram maior expansão (80,03%), seguidas pelos fundos com até 15% (78,84%). Os renda fixa e multimercados sem ações cresceram 21,29% e 18,41%, respectivamente. No total, o patrimônio dos fundos de previdência privada aberta cresceu 30,4% em 12 meses, chegando a R$ 152,7 bilhões.
No primeiro trimestre, no entanto, a bolsa não teve um desempenho espetacular, apesar da recuperação em março. E isso, segundo Nazareth, já se refletiu na captação de março, o que é mais um sinal de que o investidor olha para atrás para decidir sua alocação. No mês passado, segundo o levantamento das consultorias, a diferença de aportes entre os fundos sem ações e os com alocação em renda variável diminuiu sensivelmente em relação ao verificado nos meses anteriores. Enquanto as carteiras que operam só nos segmentos de renda fixa atraíram R$ 955,6 milhões no mês, os fundos com alguma parcela em renda variável captaram R$ 983,1 milhões.
Em janeiro, a classe mais conservadora chegou a amargar resgates de R$ 254 milhões, enquanto os fundos com ações tiveram captação de R$ 1,4 bilhão. Em fevereiro, a renda fixa recebeu aportes de R$ 396,8 milhões e as carteiras com renda variável, R$ 720,3 milhões.
Em termos de rentabilidade, a valorização da bolsa no mês passado – o IBrX subiu 5,21% – acabou puxando o retorno dos fundos de previdência com ações. As carteiras com até 15% em renda variável renderam 1,23%; as com até 30% em ações, 1,65%; e as com até 49%, 2,42%. Os fundos de renda fixa tiveram ganho de 0,67% e os multimercados sem renda variável, 0,63%.
Já no trimestre, o desempenho das classes com e sem ações ficou praticamente empatado, uma vez que os fundos com parcela em renda variável amargaram perdas com a bolsa nos primeiros meses. Só as carteiras com até 49% de alocação em renda variável, com rendimento de 2,11% no trimestre – abaixo da performance de março -, conseguiram superar o retorno dos fundos sem ações. As carteiras de renda fixa tiveram variação de 1,82% no trimestre e os multimercados sem renda variável, 1,83%. Tanto os fundos com até 15% como os com até 30% em ações renderam 1,71% nos primeiros três meses.
O sócio da NetQuant acredita que os fundos com ações ainda devem liderar a captação ao longo do segundo trimestre. Na virada do semestre, contudo, o apetite deve diminuir, na visão do executivo. “A eleição presidencial vai estar mais próxima, e isso deve trazer volatilidade para os mercados”, opina Nazareth. Ele também não vê muito mais espaço para altas na bolsa.
No primeiro trimestre, a seguradora que mais captou recursos na previdência privada aberta foi a Brasilprev. De acordo com a pesquisa das consultorias NetQuant e Towers Watson, os fundos da empresa atraíram R$ 1,5 bilhão, o equivalente a 35,4% do total. Em seguida, aparecem Itaú Unibanco, com R$ 763,9 milhões, e Bradesco Vida e Previdência, com R$ 609,7 milhões.

Alessandra Bellotto
Valor Econômico

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